Litoral do Brasil

Parte 2
Maranhão – Ceará – Rio Grande do Norte
 

O paraíso fica no Brasil e Adão e Eva circulam entre nós. Os Lençóis Maranhenses, Jericoacoara, Canoa Quebrada e Pipa são verdadeiros paraísos ainda bastante conservados e que vale a pena conhecer. Pra quem vem descendo de Belém, como fiz, o primeiro lugar a se parar é Maranhão. São Luiz ainda preserva a tradição em suas cantorias, suas festas e na qualidade humana. A cidade, além de histórica, é linda. Os casarios de São Luiz, a memória, a tradição, as ruas iluminadas por centenas de histórias contadas são imperdíveis. As danças, os folguedos, o bumba meu boi, as festas tradicionais, tudo isso faz de São Luiz um lugar excepcional.

Os meses de abril, maio, junho e julho são tomados pela festa mais bonita do Brasil, o Bumba Meu Boi. Os dois primeiro meses são os ensaios e os dois últimos são os folguedos propriamente ditos. Nela acontece um misto de teatro, música e dança, que encanta e diverte a todos. Toda a capital é tomada por grupos que chegam de várias cidades e o evento tem início no dia 13 de junho, com o batismo do boi, e vai até o dia 30, dia de São Marçal. A noite de São João (23 para 24 de junho) é um dos pontos altos, com apresentações em todos os arraiais.

O Centro Histórico ainda conserva traços fortes da colonização francesa, de 1621, da holandesa e da portuguesa. E por todo o lado se vê uma cultura extremamente rica e majestosa, com uma identidade muito própria e com uma beleza indiscutível. Mesmo não tendo a preservação que merece, São Luiz é algo à parte no Brasil


Os casarios de São Luiz


A beleza do Boi.


São Luiz à noite.

O ritmo oficial da cidade é o reggae, que ecoa por toda parte, nas rádios, nos clubes, nas barraca, nos bares. A natureza também é pródiga por aqui. O parque nacional dos Lençóis Maranhenses é uma unidade de proteção à natureza, com uma área de 156.584 ha, distribuído pelos municípios de Barreirinhas, Primeira Cruz e Santo Amaro do Maranhão. Aqui as dunas são altas e belíssimas e podem ser percorridas por bugres que são alugados na região. Há os Pequenos e os Grandes Lençóis e quando estive lá as dunas estavam secas e a maré muito baixa, o que tornou a viagem mais aventureira por causa dos ventos, das enormes massas de areia e os carros que despencavam de cima das dunas, provocando emoções fortíssimas. 


Parte dos Grandes Lençóis, que temos que atravessar de barco.


Pequenos Lençóis e a escalada a pé em uma das dunas.

Considerada a praia mais bela do mundo, Jericoacoara, no Ceará, é algo realmente deslumbrante. Área de Proteção ambiental, é cercada por dezenas de dunas elevadas, fato que a protegeu dos invasores. Terra dos índios Tremembé, foi local de instalação do vilarejo de Nossa Senhora do Rosário, como base de apoio aos portugueses nas batalhas contra os franceses que ocupavam o Maranhão.Quando estive lá fiquei impressionada com a beleza de Jericoacoara, mas também com toda a beleza da região. Pois tanto Canoa Quebrada e, principalmente Pipa, nada ficam a dever a Jericoacoara. Lá também conheci as deliciosas frutas nordestinas e a comida saborosíssima de frutos do mar a preços ótimos. A vida noturna também é algo à parte porque há uma enorme quantidade de turistas do mundo inteiro,  e os moradores locais já estão equipados para uma recepção bastante agradável. Amei esses lugares por onde passei. Conheci muita gente interessante e tomei contato com as sementes curativas que equilibarm o corpo físico, o mental e o emocional. Tudo contribuiu para tornar esta viagem especialíssima, até mesmo o pau de arara que eu peguei.Os bugres formam um capítulo à parte nessa região. Muito bem dirigidos por exímios condutores, a primeira que pergunta que nos fazem ao iniciarmos o nosso passeio pelas dunas é se queremos o passeio com ou sem emoção. Para os que sofrem de pânico ou do coração, sugiro que escolham sem emoção. Para os demais, a emoção de despencar pelas dunas, num minúsculo transporte como aquele, é demais.

 
Pela janela do Bugre, a imensidão branca das dunas.

 
Jericoacoara.

 
Canoa Quebrada, Ceará.


Pipa, em Natal.

Conheça essa parte do Brasil, você vai se deslumbrar com a beleza da região, com os sabores das comidas e com a humildade do povo nordestino. Não uma humildade subserviente, mas a humildade de quem convive diariamente com a força e a grandeza da natureza e reconhece a nossa pequenez.   Os hotéis são aconchegantes, as praias são o que há de melhor no mundo, o clima é sempre quente e propício ao banho, a beleza é estonteante e os cheiros e sabores da comida nordestina são imperdíveis.

 
A irreverência nordestina.

 

Eliane Ganem

Litoral do Brasil

Parte 1
Manaus e Belém

 Este roteiro de viagem não tem a pretensão de indicar hotéis, selecionar restaurantes, traçar um mapa fiel, ou qualquer coisa que normalmente se encontra em guias do tipo. A ideia é única e exclusivamente despertar o gosto e a vontade de se viajar pelo Brasil.

Uma série de fotos foram tiradas numa viagem que fiz, recentemente, pelas capitais do litoral brasileiro, começando por Manaus e terminando em São Paulo. Não incluo aqui o sul do Brasil especificamente porque simplesmente esse trecho não fez parte do roteiro, já que eu conhecia o sul do Brasil há tempos. De posse de 1200 fotos de boa qualidade, achei que seria interessante colocar aqui algumas e também impressões que valessem a pena. A intenção da viagem foi por mero prazer e com o intuito de conhecer meu país, de dimensões continentais, com um povo extremamente rico em sua cultura, nas diferentes formas de viver e de ver a vida.

Comecei por Manaus, como já disse e vim me detendo em todas as capitais e em alguns pontos turísticos indispensáveis em um roteiro de litoral. Portanto, continuei para Belém, São Luís do Maranhão e Lençóis Maranhenses (os grandes e pequenos); Ceará: Fortaleza, Jericoacoara e Canoa Quebrada; Rio Grande do Norte: Natal e Pipa; Paraíba: João Pessoa; Pernambuco: Recife e Olinda; Alagoas: Maceió; Bahia: Salvador e Porto de Galinhas; São Paulo(litoral). Foi excluída apenas Teresina, capital do Piauí, já que não fica no litoral. E de Salvador voei direto para São Paulo.

De qualquer forma, voltei de viagem com a nítida sensação de que deveria ser obrigatória, e financiada pelo governo, uma viagem pelo Brasil para todos os estudantes recém-formados no segundo-grau. É impossível amar aquilo que não se conhece. Por isso como podemos incentivar nossas  crianças e jovens a amar um país desconhecido, cuja dimensão impede qualquer aproximação entre o norte e o sul, entre o centro e o leste. Portanto, como estímulo à cidadania, todo garoto e garota, recém-formados em qualquer escola pública do país, deveria receber do governo uma passagem de ida começando por Manaus e de volta vindo de Porto Alegre, ou vice-versa, para conhecer pelo menos as capitais. Deveria conhecer as nossas maravilhas naturais, o nosso povo, as diferenças culturais, as imensas riquezas de cada Estado, enfim, conhecendo aquilo que temos e que é o nosso orgulho. Realmente o Brasil, além de belíssimo, tem uma força esmagadora, uma riqueza de fazer inveja a qualquer povo do mundo e que pouco conhecemos, gerando até mesmo um certo desprezo por aquilo que não fomos socializados a compreender.

Evidentemente que o governo poderia estabelecer parcerias com a hotelaria local, com as companhias aéreas, etc.,barateando os custos da viagem, estimulando o turismo, investindo na cultura e na educação dos nossos jovens, e criando um senso de pertencimento que não vemos mais hoje, principalmente nas grandes cidades.

Eu, apenas com uma mochila nas costas, economizando dinheiro e o meu corpo para conseguir alcançar o objetivo de viajar por todo o litoral imenso do norte e do nordeste, e um pouco de São Paulo, voltei com a nítida sensação que dois meses é nada pra se conhecer essa imensidão.

Portanto, esse roteiro de viagem é voltado principalmente pra quem não conhece o Brasil e quer conhecer um dia. Espero de coração ter contribuído pra que a sua viagem comece aqui e se realize o mais rápido possível. Boa Viagem!

 Manaus

A primeira cidade para iniciar este roteiro é Manaus. A viagem começou no avião. Manaus estava sob uma tempestade que impediu o nosso avião de descer. O comandante teve então a brilhante ideia de nos levar para um tour sobre a floresta, indicando os pontos principais de uma beleza  que jamais havia visto igual. A minha viagem começou então por uma bendita tempestade que me fez conhecer Manaus sobrevoando o encontro do Rio Solimões com o Negro, e ainda conhecendo uma boa parte da floresta. Não sabia a força, a pujança e a dimensão da floresta amazônica. Apesar de ter ido a Machu Picchu e entrado em contato com a floresta pelo lado peruano, nem de longe a floresta amazônica do lado brasileiro podia se comparar àquela que entrevi aos pés dos Andes.

Manaus é uma cidade pequena com em torno de 1 milhão de habitantes, incrustrada numa espécie de clareira em plena floresta. É portentosa e teve seus dias de glória na época do ciclo da borracha, como todos sabem. Ainda mantém intactas algumas preciosidades desse passado próspero, como o Teatro de Manaus.


Vista Externa do Teatro de Manaus

Um dos salões do Teatro

 A viagem pelo Rio Solimões e Negro, para ver o encontro das águas, para ver os botos cor-de-rosa, tomar contato um pouco com o povo, com os nativos, com os descendentes dos índios que ainda sobraram, foi  maravilhosa.

Se todos tivessem tido a oportunidade de conhecer melhor a beleza de seu patrimônio, não teria sequer um só pensamento destruidor a respeito dessas nossas terras, onde a natureza, que somos nós mesmos, cresce vigorosa e portentosa e nos supre do oxigênio necessário à nossa sobrevivência. Transformar a Amazônia em pasto, queimar a floresta, devastar terras do tamanho do Estado do Acre, invadir terras indígenas, é ter um pensamento não só destruidor, é não conhecer nada de si mesmo, da verdadeira riqueza, do nosso país, e muito menos do planeta, demonstrando uma ignorância perigosa para todos nós.

O encontro do Rio Negro com o Rio Solimões. Percebe-se a diferença de cor no encontro das águas.

Porto de Manaus

Caminho das Vitórias-Régias

As nossas Vitórias-Régias, já entrando pela floresta

Igarapés

Belém

Não esperava que Belém fosse tão linda. O imenso rio Guajará, que margeia uma boa parte da cidade, absolutamente navegável, inspira qualquer artista que se debruça sobre o belíssimo cais. A floresta está lá presente, soberba e impenetrável aos olhos dos desavisados das grandes cidades. Me senti insignificante e um sentimento de humildade respeitosa surgiu do nada, enchendo meus olhos de lágrimas que ficaram suspensas por toda a viagem que fiz de Manaus a Belém, diante da Floresta Amazônica. Pela primeira vez me dava conta que, apesar de ter já alguma idade, desconhecia completamente o meu país. Menos até que os muitos turistas, de várias partes do mundo, que me cumprimentavam pelo caminho como se dissessem “Parabéns!”

O cais sobre o Rio Guajará, que margeia a cidade

Muitos barcos, alguns destinados unicamente para os turistas, enfeitavam o cais com suas cores e seus gritos de vai zarpar!, acompanhados das músicas locais. Uma alegria pontilhada de cheiros que se alternavam entre os peixes cozidos, as inúmeras iguarias que vamos nos deparar depois no nosso almoço já dentro do barco.

O requintado restaurante das Docas.

Uma das ruas de Belém

Do outro lado do rio, um cais longe da sofisticação das Docas

O famosíssimo mercado Ver-o-Peso, é uma das atrações à parte. Nele podemos encontrar todo tipo de produtos, em geral não industrializados ou manufaturados. O que mais atrai são as inúmeras ervas medicinais, consumidas pela população, e que constituem um acervo de inestimável valor para todos nós. A sabedoria popular, aliada a centenas de anos de experimentação, oriundas da população e dos próprios índios, no tratamento de inúmeras doenças, inclusive aquelas ditas incuráveis na medicina ocidental, ainda se mantém mais ou menos intacta, para felicidade da população, pobre e rica, que precisa dela para a cura de seus males.
Uma pequena parte do mercado Ver-o-Peso

O que também me causou uma enorme surpresa foi a festa do Açaí, quase todas as manhãs quando o Açaí era colhido para a comercialização. Deu pra perceber a enorme importância do Açaí para a sustentação econômica da região.

Uma outra atração à parte é a Casa das Nove Janelas, que ficou famosa por causa da série na tv.

Na Parte 2 desses Relatos de Viagem, que vem logo a seguir, eu mostrarei a vocês um pouco de São Luís do Maranhão, cuja beleza só é sobrepujada pela riqueza cultural da região, os Lençóis Maranhenses, que é algo indescritível, pois mesmo sendo escritora me faltam palavras tamanha a beleza. Mostrarei um pouco de Jericoacoara, que é considerada a praia mais bela do mundo, e Pipa, que não fica nada a dever a Jericoacoara.

Eliane Ganem

A Desconstrução Poética do Social


Vivemos uma vida prosaica, cujo principal interesse está centrado em esparsas informações sobre a violência do cotidiano – amplamente divulgada pela mídia – e novelas de baixa qualidade literária que são oferecidas nas telas da tv. O poético – no sentido amplo – praticamente inexiste no nosso cotidiano. Essa forma de falar sem dizer, de escutar sem ouvir, de imaginar sem fazer. O poético cria o prazer literário, desperta a fruição estética, nos coloca diante do sabor da existência, nos surpreende porque estimula o pensamento metafísico. Mais do que o ensino da literatura, precisamos desenvolver a nossa capacidade de ensinar a ler pelo viés da arte, através de um olhar poético, metafísico, filosófico e existencial. Esse olhar, que deveria estar nas salas de aula, nas casas, nas ruas, na televisão, nos cinemas, nos teatros, no local de trabalho, em qualquer lugar onde houvesse pensamento e a sensação de que somos exemplares únicos e criadores singulares da nossa própria condição. O pensar, o estar, o caminhar filosófico e poético foram a base de algumas civilizações. Está na hora de extrair da nossa própria história o que sabemos, mas que esquecemos quando priorizamos o imediatismo dos bens materiais.

A literatura é uma construção poética bastante elaborada. Imita o real, mas o individualiza na ânima de seus personagens. Tipifica, e nessa tipificação introduz o belo, às vezes o exagero, às vezes o terror, mas certamente introduz uma singular interpretação da realidade. Ela nasce no bojo da Renascença, mas é a partir da imprensa de Gutenberg que se ampliou não só as possibilidades de divulgação da arte escrita como também a possibilidade de um maior número de leitores.

Pode-se dizer que a obra literária rompe com as expectativas de seu leitor e existe para isso. Ou seja, que a criação artística é uma mensagem que se orienta necessariamente para seu recebedor, completando nesse sentido o processo fundamental da comunicação. No entanto, a mensagem só se particulariza no momento em que provoca um “estranhamento”; portanto, precisa ser uma mensagem “original”, uma “criação”, para ter um caráter renovador da própria cultura.

É a partir dessa ruptura com o estabelecido, tanto a nível formal quanto de conteúdo, que a literatura enquanto arte, enquanto poética, pode provocar sua fissura ideológica em termos de visão da realidade e, por consequência, pode se constituir em objeto de conhecimento, ampliando e renovando o horizonte de percepção do leitor. É nesse momento que a arte se afirma como uma construção a-histórica, que apesar de estar no bojo de um social, está para além dele e pode dele falar.

Em constante simbiose com o social, que também se transforma, a arte, e particularmente a literatura, que é o que nos interessa aqui, se relaciona com o real de maneira ativa. Portanto, a criação literária só pode introduzir a “norma” (1) no seu interior para desmascarar, denunciando, pelo simples fato de existir como obra de arte, todo tipo de dominação social. Indo mais adiante, podemos levantar a questão não só da arte como o veículo principal para a denúncia de toda e qualquer dominação social, mas também a arte como o lugar do rompimento com o estabelecido, portanto com a cultura, seja ela qual for. É assim que o texto se converte em investigação do real, questionando-o, sem abdicar de sua natureza literária.

Por isso, ensinar literatura pode ter duas abordagens distintas. Ensinar aquilo que é culturalmente aceito pelo coletivo – já que a cultura é sempre coletiva. Ou ensinar pelo viés da arte, cuja função primeira é o rompimento com aquela, introduzindo o olhar da descoberta, a revolução daquilo que é culturalmente aceito. A arte é individual. É o olhar único que lançamos sobre o “normal”, o “cotidiano”, sobre o “humano”. Esse olhar descontaminado que revela, para quem olha, o estranhamento da vida, rompendo nesses momentos com o prosaico da existência, e abrindo os sentidos para a revelação poética, o enlevo, o êxtase.

Portanto, mais do que ensinar literatura, o grande desafio que os educadores enfrentam atualmente é introduzir o gosto pela leitura nas crianças e adolescentes, e muitas vezes nos adultos que frequentam as universidades e estabelecem com o livro apenas uma relação imediata e utilitária. A grande transformação ocorrida a partir da geração dos anos 70 certamente saiu de escolas que decididamente ensinavam o aluno a ter pensamento próprio. Pelas próprias condições planetárias, essa geração cresceu nos albores de um pós-guerra, quando então a humanidade havia descoberto o seu pior. Maio de 68 ficou marcado como o momento em que o mundo precisou tomar fôlego e discutir abertamente questões que antes ficavam relegadas aos pensamentos proibidos. As escolas públicas cumpriam um papel emancipador das mentes das crianças e dos adolescentes, influenciando na formação de novos leitores. As escolas particulares eram poucas, e a maior parte pertencia à igreja católica, que apesar de ser demasiadamente rigorosa ainda, tinha em seu quadro docente uma quantidade expressiva de excelentes intelectuais. Respirava-se cultura importada da Europa basicamente. Mas um tipo de cultura que cumpriu durante um bom tempo a função de introduzir nas mentes questionamentos, crítica, avaliação e transformação – que resultou numa revolução dos costumes, da família, da mulher e das chamadas minorias oprimidas. No final do século XX, a educação se deteriorou. Estamos vivendo o resultado da aculturação, da repressão, da liquidação do que tínhamos de melhor – a formação dessa massa crítica que nos custou tão caro. Claro que a ditadura militar tem o seu quinhão de responsabilidade no atual cenário cultural, mas também e principalmente a aculturação da classe média, promovida pelas escolas de primeiro e segundo graus, acrescida da inexistência de valores familiares – sejam eles quais forem – complicaram ainda mais a situação.

A questão política e econômica também tem sido decisiva. O atual modelo econômico do neoliberalismo tem cultivado frutos amargos que estamos já colhendo praticamente no mundo inteiro. Portanto, se queremos falar no ensino da literatura, devemos levar em consideração a especificidade atual da aculturação em nosso país e a inexistência de uma massa crítica nos vários segmentos da nossa sociedade.

Mais do que o ensino da literatura, o que se coloca hoje é o ensino da leitura, esse gosto pela fruição estética,  essa  ampliação  da   consciência  com  a

introdução do poético numa sociedade que privilegia basicamente o prosaico das relações sociais. E como se introduz nas mentes essa necessidade poética de conhecimento? Aquilo que faz com que despertemos para o sabor do livro ao invés de consumi-lo por uma questão meramente utilitária? A resposta está na forma como passamos para os nossos filhos e alunos a substância da nossa alma, o olhar que lê o que está escondido pela capa social. Aquilo que faz com que possamos nos entregar à verdadeira aventura da vida, não apenas como mero espectadores, mas como seres dotados de um espírito arrojado e criativo, capaz de acrescentar à leitura a experiência subjetiva da nossa própria vida.

A educação agoniza. Os recursos humanistas que tínhamos ao nosso dispor foram relegados à prateleira do arquivo morto da nossa memória. Pensar filosoficamente, ou seja, pensar na nossa condição humana, na necessidade que temos de buscar elementos para o nosso desenvolvimento individual, são questões que esbarram hoje numa competência funcional inadequada. O mercado de trabalho suprimiu – definitivamente – questões que sempre conduziram a humanidade para o interior de si mesma. Pensar filosoficamente é algo que nos oprime hoje, enquanto sabemos que civilizações inteiras alcançaram altos patamares de desenvolvimento social tendo por objetivo a compreensão básica da existência. Se a educação não se volta para a introdução do ensino da filosofia, do ensino poético, do ensino emancipatório, sobra apenas um punhado de escravos mecanizados pelo cotidiano de uma sociedade incapaz de refletir sobre si mesma. Os nossos educadores – pais, professores e o grande contingente de profissionais voltados para a educação – precisam introduzir nas suas próprias vidas o sabor poético que empresta à experiência humana o seu toque “especial”.

Por isso, respondendo rapidamente às questões colocadas pelos pós-modernos, seria interessante sim que retomássemos, pelos menos naquilo que se mostrou emancipatório, a herança do Iluminismo, mas introduzindo as conquistas primordiais dos séculos subsequentes. Precisamos sair do prosaico das novelas do cotidiano e cair no poético da nossa própria existência. Cair no poético é a expressão correta, porque o poético funciona como uma armadilha. Como diz Vinícius em um dos seus poemas: “O Operário em Construção”. Nele, um operário – que empilhava tijolos e construía casas – não sabia por que um tijolo valia mais que um pão.


“Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão –
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
(…)
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.


Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em lardo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.” (2)

E esta talvez seja a nossa melhor possibilidade – um vírus benéfico que se alastra sem se importar com as classes sociais, com a faixa etária, com nada do que é politicamente correto. Essa mesma poesia que faz a nossa existência ter mais sentido, ter mais consistência. Esse estado de espírito enlevado que soprou na alma dos mais diferentes artistas – nas artes plásticas, na literatura, na dança, na música, na medicina, na tecnologia, no pedreiro, na vida.

Como podemos introduzir então o poético nas nossas vidas, na vida dos meninos de rua, dos traficantes, da polícia? Na vida dos pais e professores, na vida dos passantes, dos caminhantes, dos educadores, psicólogos e pedagogos? Na vida dos cientistas, dos pesquisadores, dos que estão ávidos de ganância, corrompidos pelo trabalhado alienado, pela selvageria dos grandes centros urbanos, pela necessidade obscura do ganha-pão?

Essa é, para todos nós, a grande questão. E a resposta está em parte na própria literatura e na qualidade poética de suas páginas. A outra parte está nas salas de aula, nas casas, nas ruas, na televisão, nos cinemas, nos teatros, no local de trabalho, em qualquer lugar onde há pensamento e a sensação de que somos exemplares únicos e criadores singulares da nossa própria condição. O pensar, o estar, o caminhar filosófico e poético foram a base de algumas civilizações, inclusive a ocidental. Está na hora, portanto, de extrair da nossa própria história o que sabemos, mas que esquecemos quando priorizamos o imediatismo dos bens materiais.

Se conseguirmos introduzir a descoberta desse olhar que nos torna mais vivos e comprometidos com o fato de estarmos aqui nesse planeta por um tempo tão mínimo, aí sim estaremos equipando cada um de nós com o único sentido da arte – a poética como algo revolucionário.
Eliane Ganem

NOTAS

(1) FOUCAULT, Michel. História social da criança e da família, 1965, p.13
(2) LYRA,Pedro. Vinícius de moraes – poesia, 1983, p.128

Ziembinski


“É preciso que as pessoas que se dão à arte de representar criem dentro de si a mística do teatro; façam do teatro uma religião. É necessário que a cada vez que se entre num teatro se tenha sensação de estar penetrando num templo religioso. E que isso seja feito com um verdadeiro sentimento de respeito pelo que há ali dentro, porque o âmbito de uma caixa teatral é um local respeitável. Até as paredes devem ser olhadas, se possível com veneração porque, nessas mesmas paredes, muitas vezes se quebraram ecos de vozes ilustres de artistas que souberam dignificar a arte”. *
Ziembinski

Quando assisti Ziembinski atuando no palco, em 1976 – seu último espetáculo – intuía que tinha diante de mim a história viva do Teatro Brasileiro, mesmo que ainda não soubesse efetivamente de sua importância. O jeito agressivo e taciturno do seu personagem criaram em minha mente a mesma visão que trago para os dias de hoje e que procuro transcrever aqui. Havia algo de gigantesco em sua performance, algo que roubava a tímida apresentação dos outros atores. Mesmo que não soubesse exatamente disso na época, a imagem que conservo está intacta, não foi profanada pela passagem dos anos. Na verdade, nela reside o mistério daquele momento, exatamente como a experiência religiosa permanece viva dentro da gente, porque interligou definitivamente a fonte da criação divina ao nosso espírito.

Mas isso não é mérito meu. Quem assistiu Ziembinski no teatro como ator ou diretor, tem a mesma percepção de que algo se alterou em sua alma. Houve uma espécie de acréscimo existencial, um encaixe de pedras que rolavam sem destino apropriado e que agora se harmonizavam dentro do universo paralelo da arte. E o teatro, como sede da rebelião humana, tem sido vitorioso – mesmo em suas eternas e aparentemente incontroláveis crises – apenas por dispor de nomes que mantiveram a vivacidade da criação no espírito da humanidade. Um desses nomes nasceu na Polônia em 1908 e em 1941 chegou ao Brasil. Trazia uma pequena bolsa carregada de experiência teatral e uma vontade enorme de sobrepujar a morte que assolava a Europa. Zhigniew Marian Ziembinski se apaixonou pelo Rio e aqui ficou – para  cumprir  um

destino que transformou para sempre o Teatro Brasileiro.

“Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, foi a primeira grande montagem assinada por ele, e que modificou completamente a forma como o nosso teatro – ainda bastante incipiente – era produzido em meados do século passado. Um exemplo foi a luz utilizada. Naquela época, a luz teatral era uniforme, por isso os 132 efeitos de luz e mais os 20 refletores usados – alguns emprestados dos jardins do Palácio da Guanabara – não só resultaram num efeito plástico inovador, como também dividiram as cenas em três planos distintos – a realidade, as cenas do passado e o delírio da personagem – criando novas possibilidades cênicas para o texto, e que para nós eram inimagináveis. Essa montagem para o texto de Nelson foi tão marcante, que durante anos ninguém mais conseguiu montar a peça sem a concepção vertical por ele criada.

Ziembinski trazia a experiência do teatro europeu. Aos 23 anos já tinha sido diretor do Teatro Nacional de Varsóvia e do Teatro Lodz, onde dirigiu cinco peças. Nasceu em Wielicka e formou-se em arte dramática na Universidade de Cracóvia. Quando chegou ao Brasil, logo se associou ao “Os Comediantes”, um grupo de atores amadores, que trabalhavam no teatro por puro passatempo. Ziembinski transformou-os em atores profissionais, lançando-os definitivamente no cenário brasileiro, após a montagem do “Vestido de Noiva” .

Era um diretor polêmico, severo, enérgico e muitas vezes escandaloso. Por isso muitos atores, com quem trabalhou nas 94 peças que dirigiu, não morriam de amores por ele. Ensaiava até a exaustão e enquanto não obtivesse de cada um o que queria, ninguém tinha a permissão de ir embora. Passou pelo Teatro Brasileiro de Comédia e pelo Teatro Cacilda Becker. Era também pintor e fotógrafo, sendo considerado pela maior parte da crítica especializada como “um monstro do teatro”, a quem devemos ainda hoje o melhor da nossa arte.

Ziembinski morreu em 1978, aos 70 anos de idade, sendo 50 dedicados ao teatro e 35 ao teatro brasileiro. Quando chegou ao Brasil, não falava uma palavra de português, mas quando nos deixou o pequeno sotaque que ainda conservava – símbolo do esforço para compreender uma cultura tão diferente da sua – aumentava ainda mais o brilho de sua, extremamente rica, estadia entre nós.

Eliane Ganem

Ciência do Ser

Ter contato com o nosso universo interior pressu- põe um aprofundamento na nossa forma de pensar, na nossa forma de atuar, de sentir, de viver. Por isso, a Comunicação Transpessoal já nasceu equipada de fundamento “espiritual”, porque inves- tiga aquilo que tem sido relegado ao plano do invisível e, por isso mesmo, de difícil acesso para a ciência. No entanto, foi a partir do desenvolvimento da Psicologia Transpessoal que a Comunicação pode expandir seus critérios científicos para a mente humana.
Na Comunicação Transpessoal não nos preocupamos mais em qualificar ou identificar os processos que envolvem a comunicação entre um ser e outro, entre máquinas ou até mesmo entre seres humanos e máquinas, mas nos atemos exclusivamente na Comunicação que estabelecemos internamente. Essa comunicação silenciosa, mas incessante, que a nossa mente executa ininterruptamente com os muitos seres que habitam o interior do nosso plano mental.
É importante salientar que, ao contrário da Psicologia, a Comunicação Transpessoal não está interessada em associar as diferentes respostas do ser ao plano das patologias. Apenas identificamos que aquilo que o ser comunica a si mesmo são formas de contato, que ele é obrigado a desenvolver, e que tem origem na sua necessidade de ordenar o mundo elaborando respostas para as suas experiências ao longo dos anos. Essas respostas, ou seja, o corpo de atitudes, pensamentos e diálogos internos, vão formar finalmente um sistema coeso e coerente que chamamos de ego.
Portanto, ao se investigar a Comunicação Interna do Ser com ele mesmo, estamos na verdade investigando dois tipos de comunicação – a do ego e a do eu – e as diferenciações entre cada uma delas. Nesse sentido, um trabalho que inclui a consciência no próprio corpo da investigação, precisa levar em conta a consciência do investigador no processo. Por isso, usou-se como instrumental de trabalho e de pesquisa, alguns elementos emprestados da Física Quântica -basicamente o conceito de processo e energia – e também alguns sistemas elaborados pelos filósofos orientais – e que nos remeteram para aquilo que chamamos de experiência mística. E, finalmente, nos voltamos novamente para o Ocidente, fazendo a ponte necessária entre o pensamento oriental e o pensamento ocidental, através dos mais importantes pensadores do Ocidente – buscando compreender o ser.
Tendo sido compreendido no Ocidente como algo menor, algo que não dava conta da realidade objetiva estudada pela ciência e da realidade subjetiva estudada pela filosofia, a experiência mística ficou sempre relegada aos limites inapropriados da fé religiosa. No entanto, como o próprio nome diz, a experiência mística não supõe a fé, já que a fé, na verdade, nasce da incerteza, nasce da necessidade de atribuir ao outro, ou a alguma entidade, a salvação da alma e/ou a cura dos males. Enquanto que a experiência mística só existe como descoberta do ser em direção a si mesmo, ou seja, quando a fé se transforma   em   confiança   (pistis)   e  que  Jung com-

preende tão bem em seu comentário psicológico na Introdução do “Livro Tibetano da Grande Libertação”. Nesse sentido, esse movimento pode ser chamado de religioso, mas está para além das igrejas e dos dogmas. Devendo ser vivido e experimentado por todos aqueles que, em busca da verdade, procuram na ciência, na religião, na arte, e em si mesmos, respostas satisfatórias para a sua existência no mundo.
Por isso, qualquer investigação sobre o ser propõe uma reflexão fundamental sobre a existência e que pode ser expressa na pergunta – “Quem sou eu?”. A identificação de um ego social e um desdobramento desse ego em partes, pressupõe uma comunicação entre essas partes. Portanto, a comunicação que estabeleço com os múltiplos “seres” que habitam o espaço psíquico que ocupo parece fundamental para que haja uma compreensão mais aproximada desse ser que investiga a si mesmo através desta pergunta inicial.
Por isso, ao investigar o ser é necessário investigar a comunicação dos múltiplos seres que parecem habitar este alguém indivisível e único que chamamos de eu. Portanto, ao que parece, é na comunicação interna que podemos ter um vislumbre do nosso eu. É na exclusão, talvez, daquilo que não é o ego, que podemos chegar a esse ser que chamamos de eu. Uma forma de romper com esse diálogo interno que nos oblitera e nos reduz a meros atores, é a introdução da meditação em nossas vidas. É uma das formas que temos disponíveis para fazer com que nossa mente opere de modo diferente daquela que estamos acostumados.
Hoje inauguramos uma nova ciência, que tem alargado seus paradigmas para a investigação de processos invisíveis. Essa investigação, exatamente por ter ainda um caráter subjetivo, é reforçada por outras instâncias que até os dias de hoje permanecem alijadas de alguns grupos científicos mais tradicionais. Quando falamos em espiritualidade, lembramos que somos todos seres espirituais. Por isso as teorias que excluem a possibilidade de estudar o ser em sua plenitude estão fadadas ao desaparecimento. A ciência não pode mais relegar ao plano das igrejas o autoconhecimento. Na verdade, quando um cientista se entrega a uma investigação, o seu modo de olhar, suas experiências anteriores, sua visão de mundo, suas crenças podem interferir diretamente nos resultados da pesquisa. Por isso, a física quântica tem introduzido a consciência do investigador como um dos elementos do processo de investigação. E é por isso que esta nova ciência tem se alargado na construção mesmo de uma Ciência do Ser.
Além da Física Quântica, a Psicologia, a Comunicação e algumas outras ciências têm trabalho com a imaginação no campo das realidades. É necessário que a Ciência do Ser se amplie na direção de uma investigação que leve em conta processos até hoje desconhecidos. É importante entender que aquilo que não é natural não precisa ser necessariamente sobrenatural, e é por isso que ao se alargar os paradigmas desta nova ciência alargam-se também os campos de investigação, inclusive para processos até hoje inexplicáveis. Essa é uma empreitada que estamos inaugurando agora e que, certamente, estará no viés do desenvolvimento da humanidade por todo este novo milênio.
Eliane Ganem

A Arte Escrita

A literatura, especifica- mente, nasce no bojo da Renascença enquanto Arte, a partir principal- mente da imprensa de Gutenberg, que ampliou não só as possibilidades de divulgação da escrita como também a possibi- lidade de um maior número de leitores.
A ascensão da expressão escrita e, por extensão, a nova concepção da arte escrita, está relacionada aos revolucionários fenômenos sociais do século XVIII e na emergência da classe burguesa. Esta nova classe ascendente, nascida da dissolução dos traços feudais e do crescimento da vida urbana, trouxe consigo um novo ideário de valores pautados na noção de liberdade – política, social e econômica – ajustada a seus interesses.
Os conceitos de liberdade e democracia, de oportunidades iguais, condensados na máxima de que “o indivíduo é o que ele faz de si mesmo ao longo de sua existência”, trazem também uma nova forma de arte, individualizada e, posteriormente, especializada.
Em seu trabalho, “A Arte como Ideologia”, Avatar Morais traça um significativo paralelo entre a Arte e sua conformação nas sociedades capitalistas modernas.
Diz ele:
“A Arte é uma estrutura social e ideológica complexa cujos vínculos com a sociedade capitalista são tão inextrincáveis que se torna impossível imaginar sua existência em outro contexto social. Assim como é absurdo colocar o atual sistema de distribuição da Arte – com seus museus, galerias, críticos – nos quadros de qualquer sociedade de economia doméstica, é igualmente difícil conceber a ideologia artística existindo com seus valores e refinamentos conceituais na mentalidade de povos cuja cultura baseia-se em premissas totalmente diferentes da cultura ocidental.”
Entre os chamados povos “primitivos”, tudo aquilo que classificamos como arte tem um papel profundamente integrado no todo social, continua Avatar:
“Aqueles objetos do passado que hoje chamamos obra de arte tiveram na sua época uma existência ligada a um certo tipo de utilidade. Durante toda a história, as obras de arte eram artefatos fabricados para promover algum valor ulterior e não como agora, feitos precipuamente para serem obras de arte, para serem apreciados esteticamente, como aqueles que sobreviveram do passado podem ser apreciados depois de retirados de seu contexto e expostos em museus”
A literatura também se divorciou de sua função primeira, ligada à tradição e à transmissão oral e, posteriormente manualmente escrita, do arcabouço das civilizações. O Iluminismo ao privilegiar a Razão e a Filosofia cumpriu o papel necessário para a disseminação dos valores e aspirações do modo de produção capitalista, registrando seus efeitos e ordenando suas metas. A partir daí assiste-se ao advento da palavra escrita, como efeito de documento, de legitimação, sem, no entanto, jamais se transformar em tradição nos moldes anteriores.
Se a arte por si só já é ideologia, na literatura infanto-juvenil há um estrangulamento, um exagero, uma condensação numa ideologia exclusivamente de dominação. Para demonstrar esse fato, tomemos emprestado da teoria literária alguns pontos que têm servido de discussão para a constituição de um estatuto da arte escrita. Uma delas nos leva aos estruturalistas, termo que é empregado tanto pela sociologia de Lucien Goldman e Antônio Cândido como pelos formalistas russos. Chegamos então à primazia do texto, à sua autonomia. A partir daí o fenômeno literário deve ser examinado, antes de tudo, em função da sua estrutura, verificando-se as relações entre seus elementos e os contatos com a tradição literária e com a história social.
À luz dessa investigação, pode-se dizer que a “obra literária” rompe com as expectativas de seu leitor e existe para isso. Ou seja, que a criação artística é uma mensagem que se orienta necessariamente para seu recebedor, completando nesse sentido o processo fundamental da Comunicação. No entanto, essa mensagem se particulariza no momento em que provoca um “estranhamento”; portanto, precisa ser uma mensagem “original”, uma “criação”, no amplo sentido do termo, o que lhe assegura um caráter renovador.
A chamada literatura de vanguarda trabalha a partir dessa ruptura com o estabelecido, tanto a nível formal quanto de conteúdo. É aí, e somente aí, que a literatura enquanto arte pode provocar uma fissura ideológica em termos de visão da realidade e, por consequência, pode se constituir em objeto de conhecimento, ampliando  e  renovando o  horizonte de percepção  do

leitor. Em termos gerais, a arte trabalha exatamente com aquilo que não é politicamente correto, contribuindo muitas vezes para o alargamento da percepção individual, podendo vir a influenciar e, até mesmo, modificar a consciência social de um povo. No entanto, apesar de parecer contraditório a essa proposta, é nesse momento que a arte se afirma como construção a-histórica, que apesar de estar no bojo de um social, está para além dele e pode dele falar.
Em constante simbiose com o social, que também se transforma, a arte, e particularmente a literatura, que é o que nos interessa aqui, se relaciona de maneira ativa, visando à ruptura com o “convencional”. Portanto, a criação literária só pode introduzir a norma no seu interior para desmascarar, denunciando, pelo simples fato de existir como obra de arte, todo tipo de dominação social. É nesse sentido que o texto se converte em investigação do real, questionando-o, sem abdicar de sua natureza literária.
Se a literatura para crianças e jovens pretende ser literatura, é necessário que ela se inteire das condições para a sua existência como obra de arte. Senão, transformar-se-á naquilo que tem feito dela uma literatura “menor”, objeto pedagógico, com o intuito de transmitir ao receptor convenções instituídas. Na literatura infantil, esse “estranhamento” tem sido perseguido através de uma visão simplificada a respeito de arte e criação. Essa visão traz em seu cerne a concepção vulgar de que a fantasia e o lúdico, por si só, são mais do que suficientes para se fazer uma obra rica em elementos de criação e consequentemente, de arte.
A fantasia como entidade independente da realidade tem sido defendida por alguns autores, principalmente pelos autores de linha psicanalítica, notadamente Melaine Klein e seus seguidores. Para Melaine Klein, a phantasia inconsciente é a expressão mental dos instintos, e existem, portanto, como estes, desde o começo da vida. Essa teoria se contrapõe a outra que considera a phantasia puramente como instrumento de defesa e meio de fuga da realidade externa. Hanna Segal, no primeiro capítulo de seu livro Introdução à obra de Melaine Klein, aponta os equívocos que têm ocorrido pela rigidez com que este tema tem sido tratado.
Ao tentar estabelecer uma ponte entre a phantasia inconsciente e a fantasia expressa nos sonhos e na realidade interna dos pensamentos, verifica-se que ambos constroem um refúgio seguro quando o ego se vê pressionado ou atingido em algum ponto que remete o indivíduo a uma situação de conflito nem sempre facilmente superável. Por isso, a literatura infanto-juvenil pode ser considerada uma literatura de antecipação, na qual o autor, prevendo os momentos que poderão provocar em seu leitor qualquer efeito incômodo, utiliza o recurso do “escape” lúdico. Esse tipo de controle, invariavelmente, está presente em quase toda a extensão da literatura voltado à criança, sendo a partir daí, considerada uma literatura de vanguarda aquela cuja imaginação do autor é capaz de projetar fantasias ainda “originais”.
Em termos gerais, a literatura infanto-juvenil tem sido uma literatura de significados e não de significantes. Significados que pretendem apresentar o mundo de acordo com a ótica do inquestionável. Se os contos atuais já não são tão fantásticos como os contos de fadas, conservam os mesmos atributos míticos dos contos de fadas. O cenário foi mudado, o lobo foi substituído por outro tipo de ameaça como o carro, por exemplo, mas no nível da narrativa, no nível de uma visão crítica da realidade, os livros atuais, em sua maioria, realistas ou fantásticos, preservam o mundo da criança e do jovem dos questionamentos e das contradições próprias de nossa sociedade. Quando introduz uma problemática, introduz aspectos mágicos que a minimizam, protegendo o leitor de uma reflexão mais crítica.
Já o símbolo do sonho permanece em seu sentido latente, conduzindo a criança a um estado de sonolência lúdica, bem próxima da alienação. Os livros infantojuvenis, em sua maioria, servem para camuflar as verdadeiras relações de dominação e poder em nossa sociedade moderna. Com o intuito de divertir o leitor, de formar o hábito de leitura, as mais diferentes licenciosidades têm sido permitidas e aplaudidas pelos “legítimos” defensores do universo infantil.
Portanto, os autores atuais, se já não utilizam o ideário rural como pano de fundo para a interação dos personagens, como Olavo Bilac e Monteiro Lobato fizeram, experimentam o urbano apenas como cenário para as mesmas alusões inquestionáveis de organização social. Inserem o pequeno leitor dentro de confinadas propostas de aceitação da sociedade como algo já dado e impossível de ser transformado, ou sequer tocado, pelas novas gerações.

Eliane Ganem

Machu Picchu

Fiz algumas viagens como mochileira. Em geral viajo sozinha e com uma boa dose de disposição tenho feito viagens maravilhosas por esse mundo absolutamente lindo. Segue então o primeiro relato que fiz a Machu Picchu, no Peru. Não tenho nenhum interesse aqui, a não ser o de informar, aos jovens de coração e de espírito, o que podem encontrar no caminho, além de muita alegria, muito prazer e felicidade.
Boa viagem a todos!


Machu Picchu
O Vale Sagrado dos Turistas

    Caminhar pelo Peru tendo por objetivo chegar a Machu Picchu deixou de ser uma atitude de descoberta para ser mais um atrativo que empolga a indústria do turismo local. Chegar a Machu Picchu é hoje um empreendimento caro, fácil de ser alcançado pelos turistas europeus e norte-americanos, já que suas moedas possibilitam tornar a dura travessia dos incas numa empreitada divertida e sem grandes mistérios. Já para os brasileiros e sul americanos em geral, o mistério maior é conseguir fazer turismo com os parcos recursos que dispomos para aventuras dispendiosas como essa.
    Em Aguas Calientes, um pequeno povoado próximo a Machu Picchu, com o comércio local basicamente voltado para o turismo, há uma desproporção entre os preços dos hotéis que variam entre algumas dezenas de dólares e algumas dezenas de soles. Soles é a moeda oficial do Peru e equivale ao nosso real. A mesma desproporção pode ser sentida no preço da passagem de trem de Cuzco para Aguas Calientes, no preço da passagem de ônibus de Aguas Calientes para as ruínas, e ainda a entrada cobrada em dólares, aos visitantes estrangeiros, para o acesso ao Templo Sagrado de Machu Picchu.
    Muitas latas de cerveja, sacos de comida desidratada e alguns outros tipos de fast-food inundam as mochilas recheadas dos turistas, que são muitas vezes transferidas para as costas dos carregadores locais. As agências de turismo, equipadas para tornar a travessia do Vale Sagrado dos Incas em um acontecimento inesquecível para a vida pacata dos seus clientes, colocam um sem número de oportunidades para atrair a todos, com atividades para diferentes tipos e gostos, indo desde a simples caminhada, que pode ser de dois a quatro dias, até o turismo exotérico, que inclui cerimônias xamânicas em pleno Andes. É claro que tudo programado pelas agências locais em comum acordo com as agências de viagem espalhadas pelo mundo. Estima-se que Aguas Calientes é a porta de entrada para mil turistas/dia, oriundos dos mais distintos países, com os mais variados tipos de expectativa, e que podem ser satisfeitas em função da quantidade de dólares que dispõem. Mesmo os que tentam de alguma forma um turismo menos convencional, mais aventureiro, acabam por esbarrar em uma máquina muito bem montada para extorquir uma quantidade de valor considerável. Portanto, se você for, vá com margem folgada, sabendo que cada centavo gasto valerá a pena.

Como Chegar

Santiago

    Para quem sai do Brasil, em direção a Machu Picchu, o primeiro pouso pode ser Santiago do Chile, tendo como pano de fundo as cordilheiras cobertas de neve que margeiam a cidade. Santiago ainda respira um certo vigor europeu em suas bem cuidadas e resplandecentes avenidas do centro da cidade. La Plaza de las Armas, onde fica o palácio do governo, insinua uma história de luta, de conflitos sociais, de descontentamento e um certo inconformismo diante das questões sociais que se avolumam, como por exemplo a queda do nível social e econômico da população.

Apesar do dia ensolarado, em Santiago a neve é eterna

    Alguns dias em Santiago são suficientes para um ensaio do que virá depois em Cuzco, já que a altitude é bastante elevada na cidade. A vida noturna também proporciona muitos prazeres para quem gosta de bons restaurantes e de dançar. A moda musical na América do Sul é a salsa e a típica música andina, formada por grupos que misturam canções folclóricas com as tendências atuais. Esses grupos concentram-se mais no Peru, principalmente em lugares visitados pelos turistas, ávidos por uma cultura rica e distinta como a dos Andes.

Lima

    O segundo ponto de parada para os visitantes brasileiros pode ser Lima, apesar do inconveniente de sair de uma altitude elevada como a de Santiago e voltar para o nível do mar. Em Lima, a comparação com Santiago provoca uma retração imediata. O caos urbano é evidente logo nos primeiros minutos, a invasão de vans, carros e ônibus, numa corrida desenfreada e desordenada, provoca nos que chegam um impacto assustador. Depois da calmaria de Santiago, Lima se apresenta com um furor demasiado, uma luta pela sobrevivência tão descomunal, que ali se tem a sensação exata do que o estresse de uma grande cidade mal planejada pode desencadear nos seus habitantes. No entanto, dois bairros em Lima devem ser visitados. Um deles é Miraflores e o outro é Barrancos.   Ambos de classe média alta, esses bairros guardam a aconchegante beleza das praias, aliada aos jardins bem cuidados e abundantemente floridos.
O bairro de Barrancos, em Lima

    A vida noturna em Lima concentra-se em Miraflores e a comida peruana está presente em vários restaurantes, sejam eles sofisticados ou populares. O cheviche é uma comida típica, feita principalmente de frutos do mar e cozida apenas no limão, sem ir ao fogo. Cru, o cheviche vem servido fartamente com pedaços de aipim cozido, que é usado abundantemente na comida peruana.
    O milho – e há uma variedade deles – também é a base da alimentação local, desde os tempos pré-incaicos. O chincharron é outra comida típica, à base de carne de vaca, e muito consumida inclusive como refeição matinal. O mate de coca é um dos hábitos do povo, que funciona como um energético para quem precisa muitas vezes equilibrar os efeitos da altitude. O pisco é semelhante à cachaça brasileira, feita da cana-de-açúcar, e costuma ser usada abun-dantemente nos bares noturnos, transformada em pisco sauer.
    Um outro atrativo em Lima são os Mercados de Artesanato Inca que ficam na Avenida La Marina, e que vendem um tipo de arte peruana, de excelente qualidade, a preços bem menores do que os do circuito turístico. Um destaque maior se deve dar aos produtos tecidos com a lã de alpaca, usados na confecção de ponchos, camisas, camisetas, chales, bolsas, etc.

Cuzco

    Cuzco agora é o próximo objetivo para quem quer chegar em Machu Picchu. É de Cuzco que partem os trens que levam para o Vale Sagrado. Por sua altitude, a primeira providência que se deve tomar quando se chega à cidade é ingerir um mate de coca e comprar folhas de coca para mascar. Essas folhas são naturais, não provocam nenhuma alteração mental e ajudam a restabelecer o equilíbrio do corpo para quem não está acostumado a altitudes elevadas. Há também balas e toffes feitos da coca e que não são tão amargos quanto as folhas puras.Plaza de Las Armas – Cuzco à noite

    Cuzco é conhecida por sua vida noturna. São abundantes as casas noturnas que oferecem uma variedade enorme de atrativos para quem gosta de dançar, de ouvir boa música, assim como usufruir bons shows e da excelente comida cusquenha. A cidade, basicamente voltada para o turismo, oferece um passe para que o turista conheça seus principais monumentos históricos e ainda possa visitar ruínas como a de Pizac e Chincheiro.
    É imensa a quantidade de turistas que chegam no aeroporto de Cuzco, assim como é imensa a quantidade de agências de turismo que disputam a atenção dos que chegam com ofertas de pacotes variados, assim como translados e hotéis de diferentes preços. Ficar em Cuzco pode ser extremamente agradável, desde que os sintomas da altitude não prejudiquem a estadia. Uma alternativa interessante é sair de Lima para Cuzco e imediatamente pegar o trem para Machu Picchu, deixando que o corpo se aclimate a uma altitude intermediária de 2.500 metros como a de Machu Picchu e depois então retornar para os 3.800 metros de Cuzco.
    Cuzco em quéchua – idioma inca – significa centro, umbigo. E, realmente, de Cuzco partem praticamente todas as trilhas incas que levam ao Vale Sagrado. As travessias a pé pelo caminho inca são de dois tipos e incluem guia bilíngüe, além de pernoite e alimentação. O primeiro que é oferecido, tem a duração de dois dias e sai de Urubamba em direção a Machu Picchu. O segundo tem a duração de quatro dias e sai de Cuzco também com destino a Machu Picchu. Para os mais preguiçosos, ou ainda para aqueles cujo tempo é escasso, a melhor alternativa é ir de avião até Cuzco, de lá pegar um trem que leva até Aguas Calientes, e finalmente pegar um ônibus em Aguas Calientes para subir até as ruínas de Machu Picchu.

Abaixo, o Mapa do Vale Sagrado dos Incas (e dos turistas).Mapa do Vale Sagrado

    Para quem chega a Cuzco de avião, o que mais impressiona são as neves geladas dos Andes. Durante uma boa parte do percurso final até a cidade, o avião sobrevoa uma extensa região encoberta pela neve, descortinando aos nossos olhos algumas áreas pouco conhecidas até mesmo para a população local.Os Andes gelado – vista do avião

    Cuzco, a capital dos Incas, é uma cidade em que se pode perceber a dominação espanhola e a destruição que os cristãos promoviam nas civilizações e nas culturas que caíam sob sua dominação. Cuzco era o centro do melhor que a cultura incaica pode produzir. Como capital do Tahuantisuyo – que em quéchua significa “Os Quatro Cantos do Mundo”, ou seja, o Império Inca que se estendia por todo o Peru, Bolívia, Equador, sul da Colômbia, metade superior do Chile e noroeste da Argentina, Cuzco era o centro religioso, político, cultural, militar e econômico mais poderoso do império incaico.
    Praticamente destruída, sobraram apenas os alicerces das construções que os espanhóis demoliram para construírem em cima suas paredes em estilo colonial. Impossível de ser demolido, pelo tamanho das pedras e pelo encaixe feito com perfeição milimétrica, o submundo de Cuzco são as entranhas do império inca, presente também nos corredores estreitos de suas ruelas que terminam algumas em extensas escadarias.     A Calle Loreto, que desemboca na Plaza de Las Armas é uma sobrevivente incaica, preservada para pedestres e que exibe ainda um calçamento feito com enormes lajes de pedra.
    O Templo Del Sol é um bom exemplo do que aconteceu ao império inca. Ao se percorrer seus corredores, um mal-estar crescente se apropria de nós. As magníficas pedras e seus encaixes, seus códigos e significados, que extrapolam a simples compreensão que temos hoje, mostram que uma civilização de dezesseis mil anos está ali definitivamente encoberta pelas telas de pintores espanhóis, cujo tema principal era o clero. Nas telas, os olhares frígidos dos padres e das freiras interrompem o silêncio úmido das paredes que se calam, como se tivessem o poder de encobrir o verdadeiro conteúdo do templo – a adoração ao sol – e fingissem uma castidade exagerada, imprópria, fora de contexto.
    As construções espanholas de Cuzco em geral têm dois pisos e varanda de madeira entalhadas à mão. As maiores possuem amplos pátios com jardim interno onde bate o sol pela manhã. Alguns hotéis, inclusive, têm essa arquitetura. Outro atrativo interessante é o museu incaico. Nele pode-se, com mais facilidade, perceber detalhes da civilização inca, sua arte, seus costumes, seus rituais, assim como a precisão de sua astronomia, a organização político-social das cidades e o conteúdo rico e abundante de suas crenças. Por suas características históricas e geográficas, Cuzco é considerada a Capital Arqueológica da América do Sul e Patrimônio Cultural da Humanidade.
    A cidade abre caminho para a visitação de outros sítios arqueológicos que fazem parte do Vale Sagrado dos Incas e de onde partem grupos em extensas caravanas místicas em busca de uma sabedoria perdida. Mesmo que a miscigenação tenha ocorrido de forma incipiente, já que quase a totalidade da população tem traços profundamente indígenas, a memória cultural do povo é recente, cujo suporte social é a religião católica, seus santos, suas crenças e que leva o peruano a uma atitude submissa diante de sua história milenar, mas esquecida.
    De Cuzco pode-se optar por algumas alternativas. A primeira é conhecer as ruínas mais próximas da cidade, como Saqsayhuman, Chincheiro, chegando até a Pizac, famosa por suas ruínas e pelo artesanato local. A segunda alternativa é ir a Puno, que fica a oito horas de Cuzco no sentido contrário às ruínas, e que leva ao Lago Titicaca. E a terceira opção é seguir direto para Machu Picchu, objetivo principal da viagem.

Aguas Calientes

    O trem que sai de Cuzco para Aguas Calientes, leva mais ou menos cinco a seis horas em seu percurso e oferece um serviço bem inferior ao preço que cobra. Apesar disso, a viagem é linda e passa por algumas estações, margeando vilarejos e alguns sítios arqueológicos. Os Andes acompanham o circuito que o trem faz e em muitos trechos pode-se avistar os cumes cobertos de neve.
    Aguas Calientes é um pequeno lugarejo com três ou quatro ruas principais, uma praça e visitantes do mundo inteiro. O trem passa no meio da pequena cidade, tangenciando perigosamente as barracas de artesanato, ameaçando a integridade física dos comerciantes e dos turistas desavisados.
O trilho do trem esbarra nas barracas da Feira de Artesanato de Aguas Calientes

    Possui uma população local voltada para o turismo, e que inclui em seu roteiro as famosas termas medicinais que atraem pessoas dos mais variados cantos do mundo para tratamento de saúde. Na verdade, as termas públicas, de propriedade do município de Aguas Calientes, são muito simples e compostas por cinco pequenas piscinas individuais com chuveiro e uma única piscina grande onde se concentra a maior parte das pessoas. A higiene é quase nenhuma e as águas são trocadas no final do dia, o que pode vir a comprometer a qualidade dos banhos termais.
    A estadia em Aguas Calientes é cara, pois os preços são três vezes mais elevados que os de Cuzco. O motivo é que a companhia férrea, que é privada, cobra uma exorbitância dos comerciantes para transportar as mercadorias para lá.
    Além de ser um ponto de partida para Machu Picchu, Aguas Calientes é importante também pela sua vida noturna, pelos restaurantes requintados, por suas características geográficas, sua beleza natural e por concentrar uma população itinerante ricamente composta por pessoas de várias nacionalidades.

    O caminho de Aguas Calientes para Machu Picchu pode ser feito de ônibus, mas também pode ser feito a pé, margeando o rio, e aonde se chega a uma escadaria íngreme, tortuosa, no meio de uma floresta de aspecto tropical, que se eleva uns 500 metros acima de Aguas Calientes. O caminho de ônibus é rápido e segue por uma estrada de terra batida bem conservada. O caminho pela escadaria, inclui alguns mosquitos, cansaço pela subida íngreme, a má conservação das indicações e das setas, e ainda a possibilidade de algum acidente, mesmo que pequeno, já que é necessário algum preparo físico. A caminhada leva em torno de uma hora e meia a duas para dentro da floresta. E o ônibus faz o percurso em vinte minutos.
A escadaria do caminho para Machu Picchu
As setas apagadas do caminho, o único sinal dentro da floresta

Machu Picchu

    Em Machu Picchu, após comprar-se a valiosa entrada, desnuda-se para os visitantes todo um universo que parece vivo, recém-abandonado, onde se pode encontrar muitos restos de uma civilização que ainda habita o Peru, mesmo que não o saiba. Machu Picchu é a história atual dos sobreviventes. É o templo sagrado das sacerdotisas, o encontro dos Andes com os Andes, dos homens com os deuses em sua viagem cósmica. Nada lá é exagerado, a não ser a exuberante cordilheira que se agiganta primeiro em quatro imensas montanhas, da qual Machu Picchu faz parte. Logo mais adiante, em torno dessas montanhas, mais quatro rodeiam o despenhadeiro, formando um muro rochoso impenetrável. E finalmente ao redor dessas oito montanhas, mais nove abraçam o céu, sinuosas e silenciosas, encerrando quem sabe o mistério feminino dos espíritos que habitam cada uma delas. Para os Incas, o espírito das montanhas é feminino, assim como o espírito da terra, a quem eles chamam de Pacha Mama, e para quem eles oferecem as folhas de coca.

O início de Machu Picchu

    Para alguns estudiosos, Machu Picchu era a morada das acclas – virgens do sol – meninas selecionadas ainda pequenas, levando-se em conta suas qualidades físicas e morais. Essa conclusão baseia-se no fato de que 80% dos corpos mumificados e encontrados nas escavações eram de mulheres. A acllahuasi, Casa das Escolhidas, era um lugar onde as jovens ficavam enclausuradas e recebiam educação refinada. Havia as acllas do Inca, com finalidade estatais e a acllas do Sol, com finalidade religiosa. Machu Picchu parece ter sido um local de recolhimento superior, especial para o apuro do espírito, do físico, da arte e dos sentimentos elevados.

As ruínas

    A cidade cobre uma área de 700 metros de extensão de norte a sul e 500 metros de largura, levando-se no mínimo um dia para conhecê-la. Divide-se em três setores: um agrícola, um urbano e um religioso, com santuários, praça de oferendas, corredor para meditação e ainda mirantes para a observação dos astros, relógios cósmicos e bússolas precisas. O centro urbano é composto por doze bairros e 216 prédios entre moradias, templos, palácios e oficinas. Lá dentro sente-se a força de um outro centro, um outro cuzco, ou outro umbigo dentro de Cuzco, um outro nível da gravidade terrestre, que torna o ar mais leve e mais arejado para quem sobe e alcança seu pico mais alto.

Os picos de Machu Picchu

    O caminho dos homens começa em Aguas Calientes e segue o caminho que os incas trilhavam em seu desenvolvimento espiritual, para cima das montanhas. Hoje esse caminho é trilhado também por homens e mulheres que não sabem sequer porque trilham. Um pouco pela moda, talvez, um pouco pela sensação de estarem fazendo alguma coisa por si mesmos, um pouco pelo resgate das almas que perderam sua identidade ali, um pouco porque são turistas e desbravadores, porque gostam das aventuras que possam surgir no caminho. O caminho inca, o caminho dos homens, o caminho atual dos turistas sempre provocou nos viajantes uma aventura para além do estado condicionado a que estão acostumados. Importa nessa viagem existencial, o significado que será acrescentado em suas vidas, e a mudança que Machu Picchu poderá provocar apenas permanecendo inalterável através dos tempos, proporcionando ainda hoje um contato com os mistérios que se encerram dentro de cada um.
    Machu Picchu tem o caráter dos sonhos, a mesma matéria prima, soberba e inalcançável, que se agiganta diante dos nossos olhos semi-despertos, como se fosse o inconsciente da humanidade, algo que tangenciamos sem saber exatamente o verdadeiro significado. É a busca ancestral do mais íntimo que o ser humano carrega dentro de si, e que desconhece, esse selvagem que só será divinizado se houver compreensão do processo de sua subida lenta e progressiva ao patamar dos deuses.
    Tive uma iniciação xamânica no pico mais alto de Machu Picchu e que forma uma espécie de mesa de ritual ao lado de um enorme desfiladeiro. Chovia muito e estava eu e o Zé, o xamã a quem entreguei minha confiança. Machu Picchu estava deserta e a tempestade nos fez procurar uma das cavernas até que pudéssemos escalar o topo do pico onde seria feita a minha iniciação.
    Foi então que recebi do Zé, sempre ajustando pacientemente seu chapeuzinho, algumas indicações sobre o que significavam as oferendas de coca e como fazê-las, além do significado das réplicas das montanhas que se via aqui e ali na medida em que aguçávamos os nossos sentidos. Obtive muita informação nessa época e o meu coração até hoje agradece por esses momentos tão especiais.

Pizac
Um Pedaço do Sagrado

    Saí de Machu Picchu e continuei a viagem pelo Vale Sagrado dos Incas. Soberba, protegida pelas montanhas, a cidade de Pizac parece ter sido construída com a finalidade militar de proteção do império inca, mas também teve uma importância primordial na influência que suas construções pré-incaicas exerceram muitos anos depois. Nela encontramos prédios com construções em sítios distintos, sendo algumas identificadas como construções antigas, pré-incaicas, datadas aproximadamente de 1.000 a 1.200 a.c.     A característica principal de Pizac é que ela está rodeada por esse tipo de construção, o que nos possibilita conhecer de perto a origem de uma civilização de deixou traços mais fortes de sua existência do período incaico em diante, cerca de 500 anos atrás, em outros sítios históricos do Perú.
    Por esse motivo, depois da cidade sagrada de Machu Picchu, o sítio histórico e geográfico de maior importância é a cidade de Pizac, originalmente Pizaca, e que significa em quéchua – idioma inca – perdiz. O fato é que o turismo no Vale Sagrado dos Incas aumenta a cada ano e a grande quantidade de pessoas provenientes das mais distintas partes do planeta convergem inevitavelmente para Pizac. A melhor forma de se chegar à cidade é pegando um ônibus em Cuzco, cujo trajeto tem a duração de uma hora e meia, de preferência num sábado, permanecendo até o dia seguinte na região para um acontecimento à parte – a feira artesanal de Pizac, que ocorre aos domingos durante o dia inteiro.

Em Pizac, ao lado dos famosos degraus ou Andenes.

    A cultura inca estava dividida em três classe sociais: o povo (os airus), a classe média (os panakas) e a classe alta (a nobreza e o inca, chefe supremo). O primeiro sítio que nos deparamos em Pizac tem suas construções simples, erigidas sobre pedras de formatos diferentes e dispostas sem um cuidado maior uma sobre a outra. É o sítio urbano, onde ficava alojada a população mais pobre. O segundo sítio, com suas torres e mirantes, de onde se descortina todo o vale ao redor das montanhas, é o sítio militar, e suas construções já têm um acabamento mais aprimorado. O último, onde residia a nobreza e o inca, apresenta uma conformação rigorosa na colocação de imensas pedras, de corte exemplar e milimetricamente encaixadas umas sobre as outras. Há ainda um quarto sítio, onde ficam aproximadamente cinco mil tumbas – e que é considerado o maior cemitério inca de toda a América – mas que foi pouco protegido dos saques feitos pela população local e de onde foram retirados verdadeiros tesouros da época pré-incaica.

Na foto, duas tecelãs trabalham à sombra das ruínas.

    Andenes são as terras de cultivo, os degraus incaicos próprios para a agricultura. Os de Pizac são magníficos – já que a cidade era um centro agrícola importante, onde se plantava principalmente maiz (milho). Há aproximadamente quatro mil andenes em torno das montanhas de Pizac e que atendiam a uma população de cinco mil pessoas. Aliás, os andenes estão presentes praticamente em todo o Perú, pois além de servirem para a agricultura, evitam a erosão e são perfeitos para o cultivo em regiões de muita chuva.

    A porta de entrada para a cidade é chamada a porta da serpente, ou a porta da sabedoria e da inteligência, porque para os incas a serpente simbolizava essas duas coisas. O primeiro pátio, imenso, e que se debruça sobre as mais altas montanhas, era uma espécie de observatório astronômico, mas servia também para a comunicação que se fazia entre os três sítios, e ainda permitia que se observasse de muito longe a chegada de qualquer presença inoportuna. Um outro detalhe, mas de importância estratégica são os túneis escavados nas rochas e que comunicam os sítios entre si. Esses túneis foram construídos para que a população pudesse se esconder em caso de ataque inimigo, quando então os túneis eram bloqueados para que o inimigo não tivesse acesso ao outro lado.
    O vale é circundado pelo Rio Urubamba, que originariamente tinha o nome de Rio Sagrado, por isso esse sítio ainda hoje leva essa denominação. Apu la Ñusta ou a Virgem del Sol é a deusa que cuida dessas montanhas, sendo que El Templo del Sol – Intiwatana – é o sítio mais importante de Pizac. Inti em quéchua quer dizer sol e watana quer dizer amarrado, ou seja, amarrado ao sol. É o sítio religioso, onde estão os templos e as grandes pedras, que alguns acreditam terem sido utilizadas para sacrifícios de animais. Nesse lugar residiam os sacerdotes e representantes da classe média da cidade, e as construções são mais bem acabadas que as construções comuns.
    O que chama a atenção nas construções incaicas são as janelas abertas e fechadas dos cômodos dos prédios que serviam à população, o que leva a crer que as abertas serviam, obviamente, para a entrada da luz e do ar, e as fechadas serviam para a colocação de peças de utilidade e adornos. Nos templos, haviam só janelas fechadas e que serviam para colocação de oferendas e peças de conteúdo religioso. As festas e grandes eventos religiosos aconteciam do lado de fora, tendo por teto o céu, em imensos espaços abertos e circundados pelo despenhadeiro e pelo maciço das montanhas, que forma uma bela parede aconchegante e protetora.
    Nas canteiras, onde se trabalhavam as pedras, ainda se encontram nas escavações objetos que eram utilizados na extração e no corte das pedras. As culturas pré-incaicas, Wari e Tiawanacu eram exímias na arte da construção em pedras de corte preciso e encaixe perfeito. Por isso, crê-se que algumas construções destas culturas, em Pizac, tenham servido de modelo para as construções que vieram depois já na época incaica, quando os melhores arquitetos devem ter sido requisitados para repetirem o mesmo cuidado e esmero dessas construções anteriores.
    No Templo do Sol e da Lua, ou do feminino e masculino, ou ainda, do inca e da coya, sua mulher, há duas portas dianteiras por onde se entra sem que haja conexão no interior das duas construções. Assim como o Templo do Arco Íris, esse dois têm uma importância fundamental na estrutura religiosa de Pizac.
    Na Feira de Pizac, importante pela qualidade do artesanato desenvolvido na região pelas fiandeiras, e por uma série de excelentes artesãos, o produto mais refinado e de melhor aceitação entre os turistas são os ponchos, as bolsas, blusões, meias, etc. confeccionados com a lã de alpaca, extraídos do pelo da lhama. Os artefatos de barro, pela exuberância de suas cores, e ainda as joias de prata, pela sofisticação de seus entalhes, também atraem os turistas e movimentam o comércio local, famoso já pela sua originalidade artesanal.
    No entanto, apesar da grande quantidade de turistas de várias nacionalidades que chegam a Pizac nos finais de semana, na cidade praticamente não existem bons restaurantes, nem hotéis de razoável qualidade. A melhor alternativa é pernoitar em Urubamba, cidadezinha perto de Pizac e que tem uma infra-estrutura mais adequada. Urubamba, longe de ser uma cidade dormitório, impressiona pela beleza original da massa compacta das montanhas que a cercam. Pequena, pacata e agradável, a cidade atrai sem que se saiba exatamente o porquê. Sem ruinas, sem feiras de artesanato, sem qualquer atrativo que não seja uma cama limpa e um prato de comida mais saudável, Urubamba tem uma magia especial que se desprende dos Andes e envolve a cidade num clima aconchegante. De Urubamba pode-se seguir para Chincheiro dando uma chegadinha antes em Ollantaytambo, duas cidades também importantes por suas ruínas e que fazem parte do circuito inca.

Puno
O Mar de Água Doce

    Esta minha viagem terminou em Puno, de onde voltei depois para o Brasil, apesar de ter ficado em dúvida se aproveitava e pelo Lago Titicaca passava para o lado Boliviano. Mas, preferi retornar. Para quem não sabe, Puno fica a 3.800 metros de altitude e o Lago Titicaca é um verdadeiro mar suspenso de água doce. É conhecido pela sua beleza natural e pelas ilhas flutuantes, construídas com totora, um tipo de junco tirado das margens do lago. O chão é maleável e afunda sob o peso dos pés. As ilhas flutuam e mudam de posição lentamente. A mais importante dessas ilhas é a de Uros, onde um pequeno grupo de indígenas aymaras vivem.

    Os barcos, feitos de totora, deslizam pelo Lago Titicaca, como nos tempos dos nossos antepassados incas, cortando silenciosamente a água, indiferente ao ronco distante dos iates que transportam os turistas.

Tribo Aymara na Ilha de Uros, Lago Titicaca – Puno

    As agências de viagem locais cobram um valor não muito alto pela excursão de um dia nas ilhas de Uros e Taquile, com direito a guia bilingüe (espanhol e inglês) e um agradável almoço em restaurante típico em uma das ilhas ( o almoço é à parte). O preço dos hotéis não seguem a mesma lógica das agências. Na verdade, não seguem lógica nenhuma. Pode-se encontrar um hostal que oferece os mesmos serviços de um hotel três estrelas, por um preço bem menor. Os valores variam entre algumas dezenas de dólares e alguns poucos soles, o que significa que em Puno é bom chegar ou com uma indicação precisa ou pesquisar os preços antes de se instalar.
    Outros passeios também são oferecidos pelas agências. Um deles, de dois dias e uma noite, inclui as duas ilhas mencionadas anteriormente e mais uma – Amantaní. Nesta última, está incluída a visita ao Templo de Pachatata e ao de Pachamam. Há ainda as ruínas de Sillustani, que é um cemitério pré-inca, datado de 1.100 a.C., um dos mais importantes da América, ao lado do de Pizac.

Índígena Aymara, conduzindo seu barco feito de totora

    A viagem para Puno nem sempre vem de forma desavisada. Irmã de Copacabana, sua metade boliviana, que lhe fica quase defronte, Puno é extremamente agradável, mesmo que a sua população se sinta desconfortável por causa da enxurrada de estrangeiros que chegam apenas para uma visita ligeira às sua ilhas mais próximas.
    A cidade, pequena e hospitaleira, tem um comércio forte e agitado, que inicia suas atividades muito cedo – por volta das seis da manhã – quando os primeiros aviões chegam ao aeroporto, despejando uma quantidade enorme de turistas dos mais diferentes países.

    Outras ilhas de inigualável beleza, como Taquile, podem ser visitadas. De chão firme e com uma topografia que se eleva muitos metros acima do nível do lago, Taquile ainda esconde vestígios da civilização inca, bastante evidente em sua população simples e hospitaleira. Nela se pode almoçar as iguarias locais, inclusive um peixe especial de água doce, que é seco ao sol, e depois preparado com ervas da região, e de sabor inigualável.

    Rico em cantu, a flor sagrada dos incas e que é a flor oficial do Perú, em Taquile os efeitos da altitude podem se tornar mais evidentes, já que a sua altitude, somada à de Puno, chega a 4.100 metros. Lá as folhas de coca podem se tornar indispensáveis, assim como o chá que os nativos preparam de uma erva abundante em Taquile e que serve, como a coca, para tirar o cansaço e a letargia provocada pela altitude excessiva. O Lago Titicaca, legendário não só pela sua beleza, mas também pela mitologia dos antepassados que habitaram suas margens, tem uma flora e uma fauna exuberantes e em muitos trechos uma água límpida e cristalina. Em outros trechos, fruto um pouco do esgoto que vem da cidade e um pouco da própria totora que cresce forte em extensos espaços, existe um limo verde que encobre boa parte de suas águas.

    É importante também chamar a atenção para o artesanato local, de excelente qualidade. O pelo de alpaca, tecido pelas fiandeiras, produz uma roupa de especial qualidade, assim como objetos de decoração característicos da região, e fabricados em totora, atraem pela precisão com que são trabalhados.
    Para se chegar a Puno, basta estender a passagem aérea para o aeroporto que serve a cidade. Uma dica importante para quem tem tempo e disposição é dar uma chegada a Copacabana, na Bolívia, outro passeio imperdível no Lago Titicaca.

Eliane Ganem

Como reconhecer um bom livro de literatura para crianças e jovens


No momento em que as editoras estão abarrotadas de textos para publicação, sendo uma boa parte traduções que alcançaram sucesso em culturas diferentes da nossa, mas que adquiriram vida própria a partir das adaptações cinematográficas, me pergunto onde ficam os bons livros dos bons autores brasileiros que escrevem para crianças e jovens.

Apesar do governo federal estar criando leis que contribuem para o desenvolvimento do nosso cinema, da nossa TV, e que irão ajudar na colocação de livros adaptados em filmes e seriados, acredito que a literatura infantil ainda continuará no limbo por um bom tempo. Apesar de estar sendo cada dia mais valorizado pela indústria cinematográfica norte americana, no nosso país ainda há muito preconceito em relação ao escritor que escreve para crianças e jovens. Tanto é que o cinema nacional não tem interesse ainda nesse tipo de público.

Por isso está cada vez mais difícil para pais e professores reconhecerem, e até mesmo selecionarem e adotarem livros, que ajudem as nossas crianças e jovens a encontrarem um caminho literário com abordagem de temas de seu interesse sem aliená-los de sua condição básica de leitor.

Cumprindo a mesma função que alguns livros cumprem no universo da literatura para adultos, como os best-sellers, por exemplo, os livros infantojuvenis, em sua maioria, servem para camuflar as verdadeiras relações de dominação e poder em nossa sociedade moderna. Com o intuito de divertir o leitor, de formar o hábito de leitura, as mais diferentes licenciosidades têm sido permitidas e aplaudidas até mesmo pelos “legítimos” defensores do universo infantil.

Fazendo uma pequena análise dos livros atuais, percebe-se que uma parte considerável apresenta as mesmas soluções mágicas dos contos de fadas, não importando se esses textos, ao longo de sua carreira literária, tenham sido classificados como de cunho realista ou fantástico. As dicotomias bem X mal, justo X injusto, certo X errado, feio X bonito, passivo X ativo, etc., ainda estão presentes, mesmo que seja hoje em dia mais difícil de reconhecê-las. Esses textos geralmente apresentam uma conformação no nível do mágico e do fantástico. Neles se incluem as lendas, algumas fábulas e a maior parte dos textos em que os animais substituem os homens – o bestiário – para que a relação de dominação se torne menos evidente. Mas incluem também, de forma surpreendente, livros consagrados que abordam determinados temas sociais sérios, solucionados pelo lado lúdico, sem nenhum aprofundamento.

A conformação tem um caráter alienador do homem como ser no mundo, e eliminando as contradições nivela as relações sociais, esconde a dominação, fetichiza a relação dos homens com outros homens e com as coisas, e o aliena enquanto o objetifica e enquanto o suplanta nas suas ações, emoções e ideias. Nesse sentido, a literatura por si só não pode cumprir o papel alienador que envolve o homem de hoje, mas pode, e tem sido o papel de uma farta literatura, reproduzir a dominação, reforçando-a.

Desde Lobato até hoje são poucos os autores que ao respeitarem seus leitores, eliminam de suas páginas a conformação, a alienação, introduzindo o pequeno leitor nas contradições de sua época, mesmo que homeopaticamente, tratando de temas e de situações que convidam a pensar e a se posicionar desde cedo. Então, para reconhecermos uma boa literatura precisamos saber se ela se adéqua ao nosso público, se ela respeita o pequeno leitor, introduzindo-o numa leitura prazerosa, mas consequente. E se ela, sendo bem escrita, leve, ligeira, consegue abrir um leque de possibilidades que façam pensar, que resgatem o leitor para a aventura de uma boa leitura, mas também para a aventura de conhecer o outro, o mundo em que vive, as contradições sociais de seu tempo, as dúvidas que terá que enfrentar durante uma parte de sua vida ainda imatura, as diferentes abordagens que um mesmo tema pode despertar em cada um.

No entanto, apesar da sofisticação atual, dos efeitos especiais do cinema e da tv,  dos  livros  em  série  que

esgotam edições de alguns milhões de exemplares rapidamente, nada de muito novo acontece. A indústria do infantil sabe como fazer a coisa acontecer, repete fórmulas de sucesso e induz uma quantidade enorme de autores a seguirem o mesmo caminho, utilizando com abundância elementos mágicos solucionadores. Aí o lúdico se apresenta como escape certo na solução de qualquer problema ou conflito. Esses recursos empobrecem a trama, oferecendo soluções rápidas, pouco compromissadas, reduzindo o social ao individual, o individual ao mágico e ao episódico, como se todos os envolvidos fossem apenas heróis e não personagens de sua própria história.

Ao contrário da literatura para adultos, que parte de um particular para exprimir um geral, a literatura para crianças parte de um geral para exprimir um particular, um individual, e muitas vezes uma exceção. Os casos são atípicos, pois só concorrem para um único modelo no seu desdobramento. E é nisso que mora o perigo. Em nome do lúdico, em nome da imaginação, verdadeiras aberrações são glorificadas por um público pouco atento e que vê a criança como ser estático, eterno, sem avaliar o estrago que está sendo realizado e que poderá se desdobrar em sua fase adulta.

Portanto, não é necessário ser um especialista em literatura para identificar o livro adequado para uma turma de adolescentes, por exemplo, ou os pais comprarem um livro, certos de que estarão contribuindo de forma prazerosa para o amadurecimento de seus filhos. O velho bom senso é a bússola ideal, mas pontilhada de ousadia, de algo que não é fechado em si mesmo, que coloca o leitor para pensar, para refletir e até mesmo aprender que existem outras formas de se compreender o mundo, além da dele.

É sempre bom os professores lerem antes os livros que adotarão, o que nem sempre acontece, já que as editoras oferecem catálogos com dados sobre o conteúdo. Mas, além de lerem os livros, optarem pela diversidade, adotando temas diferentes, de editoras distintas, fugindo um pouco do convencional ou daquilo que todo mundo gosta. E ainda se voltarem nessa leitura, para questões básicas como trama bem elaborada, texto bem escrito, temas que estão de acordo com o nosso dia-a-dia, com a nossa realidade, e que introduzem o questionamento, o pensamento crítico, que ajudem a promover uma salutar discussão em sala de aula, e se são prazerosos.

Para os pais e professores, podemos dizer que existem alguns critérios que podem ser valorizados na hora de se escolher e adotar um livro. Aqui vão alguns:

1 – realidade sociocultural das crianças e jovens
2 – interesses relacionados com a idade
3 – interesses relacionados com a comunidade
4 – influências da mídia
5 – criatividade
6 – independência literária
7 – atualidade
8 – qualidade literária

O que significa dizer que o ambiente sociocultural determina em parte nossas escolhas, assim como os interesses relacionados com a idade. No entanto, há outros fatores que extrapolam esses limites, alguns de forma nem sempre positiva como o caso daquilo que é imposto pela mídia, e outros positivos, que fazem a diferença porque se baseiam na criatividade do autor, assim como na sua independência literária, na sua coragem na abordagem de temas, na sua atualidade, e na qualidade literária daquilo que escreve.

Para um educador, acostumado à leitura, espera-se que ele tenha quilometragem suficiente para fazer valer as melhores escolhas. Para os pais, é necessário também que tenham algum preparo, ou pelo menos curiosidade em estabelecer parâmetros de qualidade para que as escolhas ofereçam um leque abrangente de opções que poderão ajudar o pequeno leitor em sua jornada.

E, finalmente, cuidado com a mídia. Ela nos faz acreditar em crenças que não são nossas, a importar modelos estranhos à nossa realidade, como se toda a humanidade já estivesse resolvida e nos bastasse apenas a beleza importada de uma Barbie magra ou os músculos verdes de um selvagem, mas carismático, Hulk.
Eliane Ganem

Os Espiritualistas e as Religiões


Para os astrólogos, a partir da última década do século XX entramos na Era de Aquário e abandonamos a Era de Peixes. Esta última foi marcada pela filosofia cristã do sacrifício. A figura do deus morto na cruz influenciou o espírito de muita gente já que, de todas as religiões que passaram pela face da Terra, era a única que idolatrava um deus sem vida, humilhado e crucificado.

Em nome desse deus morto muitos crimes foram cometidos. Na Idade Média, chamada Idade das Trevas, a Santa Inquisição, que era uma espécie de Agência Central de Inteligência (CIA) da época, controlada pela Igreja Católica, mandou pra fogueira e pra forca muita gente inocente.

Só mais recentemente a Igreja Católica se voltou para os menos favorecidos com sua Teologia da Libertação. Assistimos então a uma renovação política dentro dessa mesma igreja, em figuras de padres e sacerdotes que se voltaram para as origens do cristianismo, na intenção de dar assistência maior aos pobres.

No Brasil, assistimos hoje a uma renovação das ideias de Lutero. Igrejas cristãs, com o mais variado número de denominações distintas, espocam aqui e acolá trazendo mais uma vez para o nosso convívio ideias conservadoras, baseadas na conversão – e muitas vezes no fanatismo – operando de forma impositora e excludente, aos moldes daquilo que a Igreja Católica fazia nos seus “melhores” dias. No entanto, como o Brasil é grande, generosamente acolhe uma diversidade religiosa ímpar. Temos a mistura de algumas religiões africanas com a religião cristã, temos o espiritismo de Kardeck, temos o espiritismo associado à umbanda, temos a umbanda e o candomblé. Temos a wicca, temos o budismo, temos o zen budismo, etc.

Basta relembrar que vieram pra cá, na época dos escravos, muitos negros de linhagem que procuraram manter sua tradição apesar da perseguição católica. O candomblé da Bahia ainda conserva intacta boa parte do ritual africano. Já modificada é a umbanda que, para sobreviver, soube incluir, entre suas figuras de pretos velhos, caboclos e orixás, os correspondentes santos católicos. Cristo continua sendo o mestre principal tanto dos cristãos quanto das vertentes africanas. Apenas não se fala do imaginário indígena, hoje convertido também, aculturado e desmoralizado. O que é uma pena, já que todas as nossas religiões foram importadas. Enquanto a religião indígena seria a única que poderíamos chamar de nossa.

Neste século, portanto, temos esse glossário de religiões, que formam o panorama no Brasil. Mas no resto do mundo, e em alguns redutos mais intelectualizados do nosso país, o verdadeiro movimento que emerge com a pujança que a nova era do século anterior anunciava, é o movimento espiritualista que independe de religião. Abrange a todos, indistintamente, e se desdobra para campos que extrapolam a espiritualidade. É um novo pensar, sentir e agir em várias questões de ordem política, social, econômica existencial e espiritual. O espiritualista acredita no espírito, no espírito da Terra, do universo e no seu próprio. Entende que o corpo é espírito em uma forma possível de sobreviver à atmosfera do nosso planeta. E que não precisamos morrer para irmos pro céu, já estamos no céu e voamos entre as nuvens e estrelas. Apenas o nosso pé toca sobre a superfície da terra, que nos ampara. Mas voamos, mesmo que sem asas, simplesmente porque estamos sobre algo que voa.

Como vivemos, o que comemos, o que nos ensinam, o que precisamos saber, como ampliamos nossa consciência, o nosso amor, são algumas das buscas que o espiritualista empreende através da meditação, da ciência, da arte e de exercícios de vida que vão estimular aquilo que os ocidentais sempre empurraram pra debaixo do tapete – o autoconhecimento. E são esses mesmos espiritualistas que estão tentando rever a religião, não só do ponto de vista das igrejas, mas também do ponto de vista do buscador. Na verdade, enquanto a maior parte das igrejas buscam por um salvador, os espiritualistas não querem ser salvos por ninguém, apenas por si mesmos.

Religião vem da palavra grega religare, que quer dizer religar consigo mesmo. Se voltar para dentro e se conectar com o ser mais verdadeiro que existe dentro de nós. Essa é, ou deveria ser, a proposta primeira de toda e qualquer religião.

No entanto, a ideia original de religião sempre esteve ameaçada pelas instituições. Vemos que algumas instituições, marcadas pelo fanatismo e pela ignorância, afastam de si qualquer ameaça às suas crenças. A maior parte delas proclama o seu deus como o único e verdadeiro, sendo os outros deuses, de outras religiões, fruto das artimanhas do diabo.

Religião é, de qualquer forma, um estado de espírito. Uma comunhão que fazemos entre o nosso ser e o deus que habita cada partícula do universo, e que, por isso mesmo, está em nós. Veja, esse modo de explicar a religião abrange, na verdade, quase todas as religiões, excluindo apenas aquelas que não têm por base o amor universal e a expansão do ser. A verdadeira religião é individual. Ou seja, cada um trilhará o seu caminho em direção a Deus, do seu modo particular. O que é melhor pra um, nem sempre será bom pra outro.

Para ilustrar a nossa matéria, vamos nos deleitar um pouco com um conto xamânico peruano, escrito por um anônimo. Este conto encontrei há muitos anos no site “Lobo do Cerrado”,mas não tinha o nome do autor. Certamente, é um conto popular, extraído da tradição xamânica do Peru. Se alguém conhecer o autor, gostaria de saber quem é, inclusive para lhe dar o crédito.

Como vocês sabem, os xamãs são indígenas, seres de sabedoria, eleitos pelo seu povo, para conduzir espiritualmente a tribo.

Conta-se que vivia nos Andes uma condor fêmea, que estava chocando onze ovos. Começaram os ovos a se tornar sementes, depois seres, trazendo consigo o aprendizado de muitas gerações. Num certo momento os ovos começaram a ter um contato telepático entre si. E passaram a conversar. Falavam sobre suas fantasias, sobre a “realidade” que acreditavam viver. Mas, com o passar do tempo os ovos notaram um estado de limitação, de opressão que aumentava dia-a-dia entre eles. Sentiam um certo desconforto e parecia que o desconforto aumentava com o passar do tempo.
Algo os limitava, algo os prendia, mas não sabiam o quê.
Não percebiam que estavam se desenvolvendo, e que era natural que a casca desse essa impressão de prisão. Então um entre eles resolveu ser o messias, o que sabia da realidade final das coisas.
- Irmãos, – pregava ele -, tive uma revelação. Descobri a causa de nosso desconforto, de nossa crescente ansiedade.
Todos fizeram silêncio! Aquilo era importante.
- É o vitelo, irmãos (o alimento que o pássaro vai comendo enquanto está no ovo), que aumenta nossa tristeza, nossa sensação de desconforto. Sentimos desconforto porque estamos nos tornando mais materiais, mais pesados, temos que nos espiritualizar, irmãos, pois só assim vamos reencontrar a felicidade e a leveza perdidas.
A “revelação” do pregador parecia ter total sentido.
Aí criaram o movimento fundamentalista :
“Só comemos vitelo suficiente para não morrer” .
A nova moda era espiritualizar-se para recuperar o estado anterior.
Como o crescimento acabou ficando mais lento, pela falta do vitelo, passaram a acreditar que o pregador conhecia a sublime verdade:
- Alimentar-se é pecado!
- Ficar mais denso é pecado
Crendo nisso viveram por um tempo numa languidez, numa indolência, numa desnutrida existência, onde a pasmaceira era tida por paz. Mas um dos ovos, sempre tem esse um, revoltou-se contra aquilo.
- Ora, pensava, se sempre me alimentei por que vou deixar de fazer isso agora, me sinto fraco, frágil… – e voltou a comer .
E comendo se sentiu oprimido, limitado, mas não se angustiou por isso e descobriu que sentir os limites de sua condição não era necessariamente associado à depressão.
Logicamente, foi expulso da comunidade. Sabemos que ovos não conhecem cores, mas se conhecessem teriam dito que ele era um mago negro! Se tivessem listas de debates iam debater se magia negra é aquela que manda comer o vitelo e magia branca é a que, em beneficio da espiritualização, manda deixar de comer.
O fato é que ele continuou a se desenvolver enquanto os outros não.
E lá iam todos pregar pro rebelde, mudar o diferente, o perigoso, o que com seus atos negava o senso comum.
Precisavam convertê-lo, salvar sua alma.
O rebelde foi perdendo a paciência com aquela conversa lamurienta, pois ficavam repetindo a mesma frase alegando ter sido revelada pelo grande “Ovo”.
Não era um diálogo, era um monólogo repetitivo de frases decoradas.
O rebelde, num movimento brusco, com sua parte mais densa (o bico) quebrou a casca do ovo.
E instantaneamente desapareceu.O pregador, aproveitador, como todo bom pregador, já foi pregando:
- Estão vendo o que acontece a quem desobedece os sagrados mandamentos? Vamos rezar ao grande Ovo, irmãos, pela alma desse pecador que se perdeu.
Para eles, o rebelde havia morrido.
Mas para o mundo aqui fora, para a condor mãe, o primeiro dos ovos vingara e ele nascera. Tudo era novo.
A principio, ele sentiu terror, depois êxtase. E quando contemplou aqueles olhos enormes, aquele ser poderoso, teve medo. Seria o diabo a castigá-lo? Seria Deus a puni-lo por ter contrariado o pregador e se alimentado?
Mas era só a sua mãe.E ele conheceu o amor.
O azul do céu, o sol, os picos nevados, a mãe condor que agora lhe dava alimento. Noite, estrelas, lua, estava extasiado.
Então se lembrou!
Seus irmãos e suas irmãs naquele estado limitado dentro dos ovos, crendo no pregador.
Agora ele sabia que era parte do crescimento sentir desconforto, sentir limites.
Fugir disso era fugir de sair do ovo. De vir para este mundo real e lindo.
Contou a sua mãe que queria encontrar um meio de falar com seus irmãos e explicar o que ele descobrira.
Ela riu.
- Mesmo que pudesse meu filho, como falaria de céu? De vento?
Como falaria das montanhas? Quer mesmo ajudar, então te aninha junto aos ovos e transmite teu calor, assim eles chocarão mais rápido.
Então lentamente, um a um, os ovos foram sendo chocados.
Ao final de algum tempo todos nasceram, quer dizer quase todos.
O pregador não nasceu, espiritualizou-se tanto, que gorou…

Eliane Ganem

Brasil Silvestre

No final do século XX, a partir dos anos 60 especificamente, a transformação social que ocorreu, determinando um novo tipo de estrutura familiar, bem diferente da forma como as famílias eram constituídas, provocou também uma distorção na Educação. Tanto as comunidades quanto as escolas, exatamente por não estarem equipadas para a socialização dessa nova geração, têm recuado no seu papel social criando brechas que estão sendo ocupadas pela infinidade de novas igrejas, profusamente constituídas principalmente nas comunidades aculturadas. O pacote oferecido pelas igrejas atuais – já que o estado, a comunidade e a escola não estão cumprindo eficazmente a parte que lhes cabe – inclui treinamento moral específico, necessário ao embasamento social das crianças e adolescentes, mas exclui todo e qualquer pensamento crítico. Ou seja, no momento em que a comunidade foi usurpada de seu papel social pela escola, no momento em que essa mesma escola criou para si o lugar de um conhecimento inviolável e excludente, foram fundadas as bases para a situação atual da Educação e o despreparo atual dos nossos jovens, tanto para ingressar no mercado de trabalho, quanto na formação de uma massa crítica e socialmente bem estruturada.
Crianças e adolescentes de um Brasil silvestre apresentam um determinado tipo de conhecimento que extrapola as convenientes salas de aula onde se aprende através de um ensino forjado pelas necessidades de uma sociedade branca, de primeiro mundo, ocidental e que se pretende universal. Em Estados como o Amazonas, por exemplo, mesmo considerando os grandes centros como Manaus, encontramos uma riqueza cultural excepcional e que não passa pela escola. Filhos de indígenas, caboclos, mestiços, brasileiros de um país sem igual no mundo, certamente essas crianças e jovens não necessitam de uma intervenção escolar que lhes diga de sua diferença, na maior parte das vezes, inaceitável para uma sociedade que se quer manter branca e ocidental. Nesses casos, a escola da forma como tem atuado, é um desserviço, e não uma possibilidade de definição cultural, muito menos de resgate social dos nossos jovens.
A escola, de acordo com os critérios de avaliação baseados na evasão escolar, se mostra inapropriada. Há uma sabedoria popular riquíssima, inclusive ativa – passada de geração para geração – e que inclui a passagem   de   um    conhecimento    que    está   se

perdendo exatamente por causa da intervenção escolar. Essa cultura rica, vasta e poderosa, precisa ser preservada pelo Estado, como patrimônio imaterial do nosso povo. Para isso a escola serviria como lugar de estudo, de reflexão, de autoconhecimento desse grupo social, elevando a autoestima e promovendo nas crianças e jovens um real interesse por sua riqueza cultural única. Seria um tipo de escola própria, com critérios de avaliação únicos, voltadas não só para a comunidade, mas também para o resto do país – e até mesmo para o mundo. Um exemplo dos estudos que poderiam ser desenvolvidos pelos jovens são as ervas medicinais que encontramos na Amazônia, e todo um conhecimento empírico na escolha dessas ervas, no cultivo, na utilização, e que tem sido passada de geração após geração pelos seus habitantes. Outro exemplo, são as manifestações culturais, a maior parte ligada à tradição oral e que se expressam na música, na dança, na literatura, ou seja, em toda uma cultura que chamamos de popular. Interessa-nos, portanto, agora, uma escola nossa, com um olhar nosso, com uma atitude voltada para a própria comunidade que antes de aprender pode nos ensinar através de sua sabedoria, desconhecida por aqueles que vivem fora desse habitat. Da forma como as escolas se organizam hoje, e o conteúdo que elas pretendem passar para os jovens – ativos dentro das comunidades onde vivem – diz respeito a uma cultura urbana, de uma pseudoelite aculturada e que não provê e nem qualifica ninguém. O mercado de trabalho nessas comunidades também se perverte em torno de uma modernidade mórbida, que mata culturalmente seus filhos, sem promover nenhuma transformação de qualidade. Uma escola própria, cuja intenção seja a formação de novos mestres – digamos assim – na passagem de um conhecimento oral – que pode ser sistematizado, é um das propostas a serem alcançadas. Nesses locais, de interesse nacional, a escola não teria por objetivo nivelar a todos no conhecimento branco, importado. Ou seja, não estaria interessada em homogeneizar as mentes numa só cultura, mesmo porque a formação dos professores está baseada também em experiências aculturadas, plasmadas nesses modelos que importamos, e que eles aprenderam em escolas semelhantes quando também eram crianças e jovens. É importante frisar que as escolas, se apropriando daquilo que sempre excluímos, resgatariam uma espécie de elo perdido que nos aproximaria de nós mesmos, de nossa diversidade cultural e de nossa riqueza, oferecendo aos jovens que aí vivem a contrapartida no resgate de sua própria dignidade cultural.
Eliane Ganem