A Desconstrução Poética do Social


Vivemos uma vida prosaica, cujo principal interesse está centrado em esparsas informações sobre a violência do cotidiano – amplamente divulgada pela mídia – e novelas de baixa qualidade literária que são oferecidas nas telas da tv. O poético – no sentido amplo – praticamente inexiste no nosso cotidiano. Essa forma de falar sem dizer, de escutar sem ouvir, de imaginar sem fazer. O poético cria o prazer literário, desperta a fruição estética, nos coloca diante do sabor da existência, nos surpreende porque estimula o pensamento metafísico. Mais do que o ensino da literatura, precisamos desenvolver a nossa capacidade de ensinar a ler pelo viés da arte, através de um olhar poético, metafísico, filosófico e existencial. Esse olhar, que deveria estar nas salas de aula, nas casas, nas ruas, na televisão, nos cinemas, nos teatros, no local de trabalho, em qualquer lugar onde houvesse pensamento e a sensação de que somos exemplares únicos e criadores singulares da nossa própria condição. O pensar, o estar, o caminhar filosófico e poético foram a base de algumas civilizações. Está na hora de extrair da nossa própria história o que sabemos, mas que esquecemos quando priorizamos o imediatismo dos bens materiais.

A literatura é uma construção poética bastante elaborada. Imita o real, mas o individualiza na ânima de seus personagens. Tipifica, e nessa tipificação introduz o belo, às vezes o exagero, às vezes o terror, mas certamente introduz uma singular interpretação da realidade. Ela nasce no bojo da Renascença, mas é a partir da imprensa de Gutenberg que se ampliou não só as possibilidades de divulgação da arte escrita como também a possibilidade de um maior número de leitores.

Pode-se dizer que a obra literária rompe com as expectativas de seu leitor e existe para isso. Ou seja, que a criação artística é uma mensagem que se orienta necessariamente para seu recebedor, completando nesse sentido o processo fundamental da comunicação. No entanto, a mensagem só se particulariza no momento em que provoca um “estranhamento”; portanto, precisa ser uma mensagem “original”, uma “criação”, para ter um caráter renovador da própria cultura.

É a partir dessa ruptura com o estabelecido, tanto a nível formal quanto de conteúdo, que a literatura enquanto arte, enquanto poética, pode provocar sua fissura ideológica em termos de visão da realidade e, por consequência, pode se constituir em objeto de conhecimento, ampliando e renovando o horizonte de percepção do leitor. É nesse momento que a arte se afirma como uma construção a-histórica, que apesar de estar no bojo de um social, está para além dele e pode dele falar.

Em constante simbiose com o social, que também se transforma, a arte, e particularmente a literatura, que é o que nos interessa aqui, se relaciona com o real de maneira ativa. Portanto, a criação literária só pode introduzir a “norma” (1) no seu interior para desmascarar, denunciando, pelo simples fato de existir como obra de arte, todo tipo de dominação social. Indo mais adiante, podemos levantar a questão não só da arte como o veículo principal para a denúncia de toda e qualquer dominação social, mas também a arte como o lugar do rompimento com o estabelecido, portanto com a cultura, seja ela qual for. É assim que o texto se converte em investigação do real, questionando-o, sem abdicar de sua natureza literária.

Por isso, ensinar literatura pode ter duas abordagens distintas. Ensinar aquilo que é culturalmente aceito pelo coletivo – já que a cultura é sempre coletiva. Ou ensinar pelo viés da arte, cuja função primeira é o rompimento com aquela, introduzindo o olhar da descoberta, a revolução daquilo que é culturalmente aceito. A arte é individual. É o olhar único que lançamos sobre o “normal”, o “cotidiano”, sobre o “humano”. Esse olhar descontaminado que revela, para quem olha, o estranhamento da vida, rompendo nesses momentos com o prosaico da existência, e abrindo os sentidos para a revelação poética, o enlevo, o êxtase.

Portanto, mais do que ensinar literatura, o grande desafio que os educadores enfrentam atualmente é introduzir o gosto pela leitura nas crianças e adolescentes, e muitas vezes nos adultos que frequentam as universidades e estabelecem com o livro apenas uma relação imediata e utilitária. A grande transformação ocorrida a partir da geração dos anos 70 certamente saiu de escolas que decididamente ensinavam o aluno a ter pensamento próprio. Pelas próprias condições planetárias, essa geração cresceu nos albores de um pós-guerra, quando então a humanidade havia descoberto o seu pior. Maio de 68 ficou marcado como o momento em que o mundo precisou tomar fôlego e discutir abertamente questões que antes ficavam relegadas aos pensamentos proibidos. As escolas públicas cumpriam um papel emancipador das mentes das crianças e dos adolescentes, influenciando na formação de novos leitores. As escolas particulares eram poucas, e a maior parte pertencia à igreja católica, que apesar de ser demasiadamente rigorosa ainda, tinha em seu quadro docente uma quantidade expressiva de excelentes intelectuais. Respirava-se cultura importada da Europa basicamente. Mas um tipo de cultura que cumpriu durante um bom tempo a função de introduzir nas mentes questionamentos, crítica, avaliação e transformação – que resultou numa revolução dos costumes, da família, da mulher e das chamadas minorias oprimidas. No final do século XX, a educação se deteriorou. Estamos vivendo o resultado da aculturação, da repressão, da liquidação do que tínhamos de melhor – a formação dessa massa crítica que nos custou tão caro. Claro que a ditadura militar tem o seu quinhão de responsabilidade no atual cenário cultural, mas também e principalmente a aculturação da classe média, promovida pelas escolas de primeiro e segundo graus, acrescida da inexistência de valores familiares – sejam eles quais forem – complicaram ainda mais a situação.

A questão política e econômica também tem sido decisiva. O atual modelo econômico do neoliberalismo tem cultivado frutos amargos que estamos já colhendo praticamente no mundo inteiro. Portanto, se queremos falar no ensino da literatura, devemos levar em consideração a especificidade atual da aculturação em nosso país e a inexistência de uma massa crítica nos vários segmentos da nossa sociedade.

Mais do que o ensino da literatura, o que se coloca hoje é o ensino da leitura, esse gosto pela fruição estética,  essa  ampliação  da   consciência  com  a

introdução do poético numa sociedade que privilegia basicamente o prosaico das relações sociais. E como se introduz nas mentes essa necessidade poética de conhecimento? Aquilo que faz com que despertemos para o sabor do livro ao invés de consumi-lo por uma questão meramente utilitária? A resposta está na forma como passamos para os nossos filhos e alunos a substância da nossa alma, o olhar que lê o que está escondido pela capa social. Aquilo que faz com que possamos nos entregar à verdadeira aventura da vida, não apenas como mero espectadores, mas como seres dotados de um espírito arrojado e criativo, capaz de acrescentar à leitura a experiência subjetiva da nossa própria vida.

A educação agoniza. Os recursos humanistas que tínhamos ao nosso dispor foram relegados à prateleira do arquivo morto da nossa memória. Pensar filosoficamente, ou seja, pensar na nossa condição humana, na necessidade que temos de buscar elementos para o nosso desenvolvimento individual, são questões que esbarram hoje numa competência funcional inadequada. O mercado de trabalho suprimiu – definitivamente – questões que sempre conduziram a humanidade para o interior de si mesma. Pensar filosoficamente é algo que nos oprime hoje, enquanto sabemos que civilizações inteiras alcançaram altos patamares de desenvolvimento social tendo por objetivo a compreensão básica da existência. Se a educação não se volta para a introdução do ensino da filosofia, do ensino poético, do ensino emancipatório, sobra apenas um punhado de escravos mecanizados pelo cotidiano de uma sociedade incapaz de refletir sobre si mesma. Os nossos educadores – pais, professores e o grande contingente de profissionais voltados para a educação – precisam introduzir nas suas próprias vidas o sabor poético que empresta à experiência humana o seu toque “especial”.

Por isso, respondendo rapidamente às questões colocadas pelos pós-modernos, seria interessante sim que retomássemos, pelos menos naquilo que se mostrou emancipatório, a herança do Iluminismo, mas introduzindo as conquistas primordiais dos séculos subsequentes. Precisamos sair do prosaico das novelas do cotidiano e cair no poético da nossa própria existência. Cair no poético é a expressão correta, porque o poético funciona como uma armadilha. Como diz Vinícius em um dos seus poemas: “O Operário em Construção”. Nele, um operário – que empilhava tijolos e construía casas – não sabia por que um tijolo valia mais que um pão.


“Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão –
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
(…)
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.


Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em lardo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.” (2)

E esta talvez seja a nossa melhor possibilidade – um vírus benéfico que se alastra sem se importar com as classes sociais, com a faixa etária, com nada do que é politicamente correto. Essa mesma poesia que faz a nossa existência ter mais sentido, ter mais consistência. Esse estado de espírito enlevado que soprou na alma dos mais diferentes artistas – nas artes plásticas, na literatura, na dança, na música, na medicina, na tecnologia, no pedreiro, na vida.

Como podemos introduzir então o poético nas nossas vidas, na vida dos meninos de rua, dos traficantes, da polícia? Na vida dos pais e professores, na vida dos passantes, dos caminhantes, dos educadores, psicólogos e pedagogos? Na vida dos cientistas, dos pesquisadores, dos que estão ávidos de ganância, corrompidos pelo trabalhado alienado, pela selvageria dos grandes centros urbanos, pela necessidade obscura do ganha-pão?

Essa é, para todos nós, a grande questão. E a resposta está em parte na própria literatura e na qualidade poética de suas páginas. A outra parte está nas salas de aula, nas casas, nas ruas, na televisão, nos cinemas, nos teatros, no local de trabalho, em qualquer lugar onde há pensamento e a sensação de que somos exemplares únicos e criadores singulares da nossa própria condição. O pensar, o estar, o caminhar filosófico e poético foram a base de algumas civilizações, inclusive a ocidental. Está na hora, portanto, de extrair da nossa própria história o que sabemos, mas que esquecemos quando priorizamos o imediatismo dos bens materiais.

Se conseguirmos introduzir a descoberta desse olhar que nos torna mais vivos e comprometidos com o fato de estarmos aqui nesse planeta por um tempo tão mínimo, aí sim estaremos equipando cada um de nós com o único sentido da arte – a poética como algo revolucionário.
Eliane Ganem

NOTAS

(1) FOUCAULT, Michel. História social da criança e da família, 1965, p.13
(2) LYRA,Pedro. Vinícius de moraes – poesia, 1983, p.128

A Arte Escrita

A literatura, especifica- mente, nasce no bojo da Renascença enquanto Arte, a partir principal- mente da imprensa de Gutenberg, que ampliou não só as possibilidades de divulgação da escrita como também a possibi- lidade de um maior número de leitores.
A ascensão da expressão escrita e, por extensão, a nova concepção da arte escrita, está relacionada aos revolucionários fenômenos sociais do século XVIII e na emergência da classe burguesa. Esta nova classe ascendente, nascida da dissolução dos traços feudais e do crescimento da vida urbana, trouxe consigo um novo ideário de valores pautados na noção de liberdade – política, social e econômica – ajustada a seus interesses.
Os conceitos de liberdade e democracia, de oportunidades iguais, condensados na máxima de que “o indivíduo é o que ele faz de si mesmo ao longo de sua existência”, trazem também uma nova forma de arte, individualizada e, posteriormente, especializada.
Em seu trabalho, “A Arte como Ideologia”, Avatar Morais traça um significativo paralelo entre a Arte e sua conformação nas sociedades capitalistas modernas.
Diz ele:
“A Arte é uma estrutura social e ideológica complexa cujos vínculos com a sociedade capitalista são tão inextrincáveis que se torna impossível imaginar sua existência em outro contexto social. Assim como é absurdo colocar o atual sistema de distribuição da Arte – com seus museus, galerias, críticos – nos quadros de qualquer sociedade de economia doméstica, é igualmente difícil conceber a ideologia artística existindo com seus valores e refinamentos conceituais na mentalidade de povos cuja cultura baseia-se em premissas totalmente diferentes da cultura ocidental.”
Entre os chamados povos “primitivos”, tudo aquilo que classificamos como arte tem um papel profundamente integrado no todo social, continua Avatar:
“Aqueles objetos do passado que hoje chamamos obra de arte tiveram na sua época uma existência ligada a um certo tipo de utilidade. Durante toda a história, as obras de arte eram artefatos fabricados para promover algum valor ulterior e não como agora, feitos precipuamente para serem obras de arte, para serem apreciados esteticamente, como aqueles que sobreviveram do passado podem ser apreciados depois de retirados de seu contexto e expostos em museus”
A literatura também se divorciou de sua função primeira, ligada à tradição e à transmissão oral e, posteriormente manualmente escrita, do arcabouço das civilizações. O Iluminismo ao privilegiar a Razão e a Filosofia cumpriu o papel necessário para a disseminação dos valores e aspirações do modo de produção capitalista, registrando seus efeitos e ordenando suas metas. A partir daí assiste-se ao advento da palavra escrita, como efeito de documento, de legitimação, sem, no entanto, jamais se transformar em tradição nos moldes anteriores.
Se a arte por si só já é ideologia, na literatura infanto-juvenil há um estrangulamento, um exagero, uma condensação numa ideologia exclusivamente de dominação. Para demonstrar esse fato, tomemos emprestado da teoria literária alguns pontos que têm servido de discussão para a constituição de um estatuto da arte escrita. Uma delas nos leva aos estruturalistas, termo que é empregado tanto pela sociologia de Lucien Goldman e Antônio Cândido como pelos formalistas russos. Chegamos então à primazia do texto, à sua autonomia. A partir daí o fenômeno literário deve ser examinado, antes de tudo, em função da sua estrutura, verificando-se as relações entre seus elementos e os contatos com a tradição literária e com a história social.
À luz dessa investigação, pode-se dizer que a “obra literária” rompe com as expectativas de seu leitor e existe para isso. Ou seja, que a criação artística é uma mensagem que se orienta necessariamente para seu recebedor, completando nesse sentido o processo fundamental da Comunicação. No entanto, essa mensagem se particulariza no momento em que provoca um “estranhamento”; portanto, precisa ser uma mensagem “original”, uma “criação”, no amplo sentido do termo, o que lhe assegura um caráter renovador.
A chamada literatura de vanguarda trabalha a partir dessa ruptura com o estabelecido, tanto a nível formal quanto de conteúdo. É aí, e somente aí, que a literatura enquanto arte pode provocar uma fissura ideológica em termos de visão da realidade e, por consequência, pode se constituir em objeto de conhecimento, ampliando  e  renovando o  horizonte de percepção  do

leitor. Em termos gerais, a arte trabalha exatamente com aquilo que não é politicamente correto, contribuindo muitas vezes para o alargamento da percepção individual, podendo vir a influenciar e, até mesmo, modificar a consciência social de um povo. No entanto, apesar de parecer contraditório a essa proposta, é nesse momento que a arte se afirma como construção a-histórica, que apesar de estar no bojo de um social, está para além dele e pode dele falar.
Em constante simbiose com o social, que também se transforma, a arte, e particularmente a literatura, que é o que nos interessa aqui, se relaciona de maneira ativa, visando à ruptura com o “convencional”. Portanto, a criação literária só pode introduzir a norma no seu interior para desmascarar, denunciando, pelo simples fato de existir como obra de arte, todo tipo de dominação social. É nesse sentido que o texto se converte em investigação do real, questionando-o, sem abdicar de sua natureza literária.
Se a literatura para crianças e jovens pretende ser literatura, é necessário que ela se inteire das condições para a sua existência como obra de arte. Senão, transformar-se-á naquilo que tem feito dela uma literatura “menor”, objeto pedagógico, com o intuito de transmitir ao receptor convenções instituídas. Na literatura infantil, esse “estranhamento” tem sido perseguido através de uma visão simplificada a respeito de arte e criação. Essa visão traz em seu cerne a concepção vulgar de que a fantasia e o lúdico, por si só, são mais do que suficientes para se fazer uma obra rica em elementos de criação e consequentemente, de arte.
A fantasia como entidade independente da realidade tem sido defendida por alguns autores, principalmente pelos autores de linha psicanalítica, notadamente Melaine Klein e seus seguidores. Para Melaine Klein, a phantasia inconsciente é a expressão mental dos instintos, e existem, portanto, como estes, desde o começo da vida. Essa teoria se contrapõe a outra que considera a phantasia puramente como instrumento de defesa e meio de fuga da realidade externa. Hanna Segal, no primeiro capítulo de seu livro Introdução à obra de Melaine Klein, aponta os equívocos que têm ocorrido pela rigidez com que este tema tem sido tratado.
Ao tentar estabelecer uma ponte entre a phantasia inconsciente e a fantasia expressa nos sonhos e na realidade interna dos pensamentos, verifica-se que ambos constroem um refúgio seguro quando o ego se vê pressionado ou atingido em algum ponto que remete o indivíduo a uma situação de conflito nem sempre facilmente superável. Por isso, a literatura infanto-juvenil pode ser considerada uma literatura de antecipação, na qual o autor, prevendo os momentos que poderão provocar em seu leitor qualquer efeito incômodo, utiliza o recurso do “escape” lúdico. Esse tipo de controle, invariavelmente, está presente em quase toda a extensão da literatura voltado à criança, sendo a partir daí, considerada uma literatura de vanguarda aquela cuja imaginação do autor é capaz de projetar fantasias ainda “originais”.
Em termos gerais, a literatura infanto-juvenil tem sido uma literatura de significados e não de significantes. Significados que pretendem apresentar o mundo de acordo com a ótica do inquestionável. Se os contos atuais já não são tão fantásticos como os contos de fadas, conservam os mesmos atributos míticos dos contos de fadas. O cenário foi mudado, o lobo foi substituído por outro tipo de ameaça como o carro, por exemplo, mas no nível da narrativa, no nível de uma visão crítica da realidade, os livros atuais, em sua maioria, realistas ou fantásticos, preservam o mundo da criança e do jovem dos questionamentos e das contradições próprias de nossa sociedade. Quando introduz uma problemática, introduz aspectos mágicos que a minimizam, protegendo o leitor de uma reflexão mais crítica.
Já o símbolo do sonho permanece em seu sentido latente, conduzindo a criança a um estado de sonolência lúdica, bem próxima da alienação. Os livros infantojuvenis, em sua maioria, servem para camuflar as verdadeiras relações de dominação e poder em nossa sociedade moderna. Com o intuito de divertir o leitor, de formar o hábito de leitura, as mais diferentes licenciosidades têm sido permitidas e aplaudidas pelos “legítimos” defensores do universo infantil.
Portanto, os autores atuais, se já não utilizam o ideário rural como pano de fundo para a interação dos personagens, como Olavo Bilac e Monteiro Lobato fizeram, experimentam o urbano apenas como cenário para as mesmas alusões inquestionáveis de organização social. Inserem o pequeno leitor dentro de confinadas propostas de aceitação da sociedade como algo já dado e impossível de ser transformado, ou sequer tocado, pelas novas gerações.

Eliane Ganem

Como reconhecer um bom livro de literatura para crianças e jovens


No momento em que as editoras estão abarrotadas de textos para publicação, sendo uma boa parte traduções que alcançaram sucesso em culturas diferentes da nossa, mas que adquiriram vida própria a partir das adaptações cinematográficas, me pergunto onde ficam os bons livros dos bons autores brasileiros que escrevem para crianças e jovens.

Apesar do governo federal estar criando leis que contribuem para o desenvolvimento do nosso cinema, da nossa TV, e que irão ajudar na colocação de livros adaptados em filmes e seriados, acredito que a literatura infantil ainda continuará no limbo por um bom tempo. Apesar de estar sendo cada dia mais valorizado pela indústria cinematográfica norte americana, no nosso país ainda há muito preconceito em relação ao escritor que escreve para crianças e jovens. Tanto é que o cinema nacional não tem interesse ainda nesse tipo de público.

Por isso está cada vez mais difícil para pais e professores reconhecerem, e até mesmo selecionarem e adotarem livros, que ajudem as nossas crianças e jovens a encontrarem um caminho literário com abordagem de temas de seu interesse sem aliená-los de sua condição básica de leitor.

Cumprindo a mesma função que alguns livros cumprem no universo da literatura para adultos, como os best-sellers, por exemplo, os livros infantojuvenis, em sua maioria, servem para camuflar as verdadeiras relações de dominação e poder em nossa sociedade moderna. Com o intuito de divertir o leitor, de formar o hábito de leitura, as mais diferentes licenciosidades têm sido permitidas e aplaudidas até mesmo pelos “legítimos” defensores do universo infantil.

Fazendo uma pequena análise dos livros atuais, percebe-se que uma parte considerável apresenta as mesmas soluções mágicas dos contos de fadas, não importando se esses textos, ao longo de sua carreira literária, tenham sido classificados como de cunho realista ou fantástico. As dicotomias bem X mal, justo X injusto, certo X errado, feio X bonito, passivo X ativo, etc., ainda estão presentes, mesmo que seja hoje em dia mais difícil de reconhecê-las. Esses textos geralmente apresentam uma conformação no nível do mágico e do fantástico. Neles se incluem as lendas, algumas fábulas e a maior parte dos textos em que os animais substituem os homens – o bestiário – para que a relação de dominação se torne menos evidente. Mas incluem também, de forma surpreendente, livros consagrados que abordam determinados temas sociais sérios, solucionados pelo lado lúdico, sem nenhum aprofundamento.

A conformação tem um caráter alienador do homem como ser no mundo, e eliminando as contradições nivela as relações sociais, esconde a dominação, fetichiza a relação dos homens com outros homens e com as coisas, e o aliena enquanto o objetifica e enquanto o suplanta nas suas ações, emoções e ideias. Nesse sentido, a literatura por si só não pode cumprir o papel alienador que envolve o homem de hoje, mas pode, e tem sido o papel de uma farta literatura, reproduzir a dominação, reforçando-a.

Desde Lobato até hoje são poucos os autores que ao respeitarem seus leitores, eliminam de suas páginas a conformação, a alienação, introduzindo o pequeno leitor nas contradições de sua época, mesmo que homeopaticamente, tratando de temas e de situações que convidam a pensar e a se posicionar desde cedo. Então, para reconhecermos uma boa literatura precisamos saber se ela se adéqua ao nosso público, se ela respeita o pequeno leitor, introduzindo-o numa leitura prazerosa, mas consequente. E se ela, sendo bem escrita, leve, ligeira, consegue abrir um leque de possibilidades que façam pensar, que resgatem o leitor para a aventura de uma boa leitura, mas também para a aventura de conhecer o outro, o mundo em que vive, as contradições sociais de seu tempo, as dúvidas que terá que enfrentar durante uma parte de sua vida ainda imatura, as diferentes abordagens que um mesmo tema pode despertar em cada um.

No entanto, apesar da sofisticação atual, dos efeitos especiais do cinema e da tv,  dos  livros  em  série  que

esgotam edições de alguns milhões de exemplares rapidamente, nada de muito novo acontece. A indústria do infantil sabe como fazer a coisa acontecer, repete fórmulas de sucesso e induz uma quantidade enorme de autores a seguirem o mesmo caminho, utilizando com abundância elementos mágicos solucionadores. Aí o lúdico se apresenta como escape certo na solução de qualquer problema ou conflito. Esses recursos empobrecem a trama, oferecendo soluções rápidas, pouco compromissadas, reduzindo o social ao individual, o individual ao mágico e ao episódico, como se todos os envolvidos fossem apenas heróis e não personagens de sua própria história.

Ao contrário da literatura para adultos, que parte de um particular para exprimir um geral, a literatura para crianças parte de um geral para exprimir um particular, um individual, e muitas vezes uma exceção. Os casos são atípicos, pois só concorrem para um único modelo no seu desdobramento. E é nisso que mora o perigo. Em nome do lúdico, em nome da imaginação, verdadeiras aberrações são glorificadas por um público pouco atento e que vê a criança como ser estático, eterno, sem avaliar o estrago que está sendo realizado e que poderá se desdobrar em sua fase adulta.

Portanto, não é necessário ser um especialista em literatura para identificar o livro adequado para uma turma de adolescentes, por exemplo, ou os pais comprarem um livro, certos de que estarão contribuindo de forma prazerosa para o amadurecimento de seus filhos. O velho bom senso é a bússola ideal, mas pontilhada de ousadia, de algo que não é fechado em si mesmo, que coloca o leitor para pensar, para refletir e até mesmo aprender que existem outras formas de se compreender o mundo, além da dele.

É sempre bom os professores lerem antes os livros que adotarão, o que nem sempre acontece, já que as editoras oferecem catálogos com dados sobre o conteúdo. Mas, além de lerem os livros, optarem pela diversidade, adotando temas diferentes, de editoras distintas, fugindo um pouco do convencional ou daquilo que todo mundo gosta. E ainda se voltarem nessa leitura, para questões básicas como trama bem elaborada, texto bem escrito, temas que estão de acordo com o nosso dia-a-dia, com a nossa realidade, e que introduzem o questionamento, o pensamento crítico, que ajudem a promover uma salutar discussão em sala de aula, e se são prazerosos.

Para os pais e professores, podemos dizer que existem alguns critérios que podem ser valorizados na hora de se escolher e adotar um livro. Aqui vão alguns:

1 – realidade sociocultural das crianças e jovens
2 – interesses relacionados com a idade
3 – interesses relacionados com a comunidade
4 – influências da mídia
5 – criatividade
6 – independência literária
7 – atualidade
8 – qualidade literária

O que significa dizer que o ambiente sociocultural determina em parte nossas escolhas, assim como os interesses relacionados com a idade. No entanto, há outros fatores que extrapolam esses limites, alguns de forma nem sempre positiva como o caso daquilo que é imposto pela mídia, e outros positivos, que fazem a diferença porque se baseiam na criatividade do autor, assim como na sua independência literária, na sua coragem na abordagem de temas, na sua atualidade, e na qualidade literária daquilo que escreve.

Para um educador, acostumado à leitura, espera-se que ele tenha quilometragem suficiente para fazer valer as melhores escolhas. Para os pais, é necessário também que tenham algum preparo, ou pelo menos curiosidade em estabelecer parâmetros de qualidade para que as escolhas ofereçam um leque abrangente de opções que poderão ajudar o pequeno leitor em sua jornada.

E, finalmente, cuidado com a mídia. Ela nos faz acreditar em crenças que não são nossas, a importar modelos estranhos à nossa realidade, como se toda a humanidade já estivesse resolvida e nos bastasse apenas a beleza importada de uma Barbie magra ou os músculos verdes de um selvagem, mas carismático, Hulk.
Eliane Ganem

Brasil Silvestre

No final do século XX, a partir dos anos 60 especificamente, a transformação social que ocorreu, determinando um novo tipo de estrutura familiar, bem diferente da forma como as famílias eram constituídas, provocou também uma distorção na Educação. Tanto as comunidades quanto as escolas, exatamente por não estarem equipadas para a socialização dessa nova geração, têm recuado no seu papel social criando brechas que estão sendo ocupadas pela infinidade de novas igrejas, profusamente constituídas principalmente nas comunidades aculturadas. O pacote oferecido pelas igrejas atuais – já que o estado, a comunidade e a escola não estão cumprindo eficazmente a parte que lhes cabe – inclui treinamento moral específico, necessário ao embasamento social das crianças e adolescentes, mas exclui todo e qualquer pensamento crítico. Ou seja, no momento em que a comunidade foi usurpada de seu papel social pela escola, no momento em que essa mesma escola criou para si o lugar de um conhecimento inviolável e excludente, foram fundadas as bases para a situação atual da Educação e o despreparo atual dos nossos jovens, tanto para ingressar no mercado de trabalho, quanto na formação de uma massa crítica e socialmente bem estruturada.
Crianças e adolescentes de um Brasil silvestre apresentam um determinado tipo de conhecimento que extrapola as convenientes salas de aula onde se aprende através de um ensino forjado pelas necessidades de uma sociedade branca, de primeiro mundo, ocidental e que se pretende universal. Em Estados como o Amazonas, por exemplo, mesmo considerando os grandes centros como Manaus, encontramos uma riqueza cultural excepcional e que não passa pela escola. Filhos de indígenas, caboclos, mestiços, brasileiros de um país sem igual no mundo, certamente essas crianças e jovens não necessitam de uma intervenção escolar que lhes diga de sua diferença, na maior parte das vezes, inaceitável para uma sociedade que se quer manter branca e ocidental. Nesses casos, a escola da forma como tem atuado, é um desserviço, e não uma possibilidade de definição cultural, muito menos de resgate social dos nossos jovens.
A escola, de acordo com os critérios de avaliação baseados na evasão escolar, se mostra inapropriada. Há uma sabedoria popular riquíssima, inclusive ativa – passada de geração para geração – e que inclui a passagem   de   um    conhecimento    que    está   se

perdendo exatamente por causa da intervenção escolar. Essa cultura rica, vasta e poderosa, precisa ser preservada pelo Estado, como patrimônio imaterial do nosso povo. Para isso a escola serviria como lugar de estudo, de reflexão, de autoconhecimento desse grupo social, elevando a autoestima e promovendo nas crianças e jovens um real interesse por sua riqueza cultural única. Seria um tipo de escola própria, com critérios de avaliação únicos, voltadas não só para a comunidade, mas também para o resto do país – e até mesmo para o mundo. Um exemplo dos estudos que poderiam ser desenvolvidos pelos jovens são as ervas medicinais que encontramos na Amazônia, e todo um conhecimento empírico na escolha dessas ervas, no cultivo, na utilização, e que tem sido passada de geração após geração pelos seus habitantes. Outro exemplo, são as manifestações culturais, a maior parte ligada à tradição oral e que se expressam na música, na dança, na literatura, ou seja, em toda uma cultura que chamamos de popular. Interessa-nos, portanto, agora, uma escola nossa, com um olhar nosso, com uma atitude voltada para a própria comunidade que antes de aprender pode nos ensinar através de sua sabedoria, desconhecida por aqueles que vivem fora desse habitat. Da forma como as escolas se organizam hoje, e o conteúdo que elas pretendem passar para os jovens – ativos dentro das comunidades onde vivem – diz respeito a uma cultura urbana, de uma pseudoelite aculturada e que não provê e nem qualifica ninguém. O mercado de trabalho nessas comunidades também se perverte em torno de uma modernidade mórbida, que mata culturalmente seus filhos, sem promover nenhuma transformação de qualidade. Uma escola própria, cuja intenção seja a formação de novos mestres – digamos assim – na passagem de um conhecimento oral – que pode ser sistematizado, é um das propostas a serem alcançadas. Nesses locais, de interesse nacional, a escola não teria por objetivo nivelar a todos no conhecimento branco, importado. Ou seja, não estaria interessada em homogeneizar as mentes numa só cultura, mesmo porque a formação dos professores está baseada também em experiências aculturadas, plasmadas nesses modelos que importamos, e que eles aprenderam em escolas semelhantes quando também eram crianças e jovens. É importante frisar que as escolas, se apropriando daquilo que sempre excluímos, resgatariam uma espécie de elo perdido que nos aproximaria de nós mesmos, de nossa diversidade cultural e de nossa riqueza, oferecendo aos jovens que aí vivem a contrapartida no resgate de sua própria dignidade cultural.
Eliane Ganem

Educação para os Bem Educados

Este texto é parte introdutória do livro “Educação para os Bem Educados”, de autoria de Eliane Ganem, que será lançado em breve.
Este texto pode ser usado, desde que mencionada a fonte.

Educar é parte de uma situação em que nos envolvemos com alguém semelhante a nós, em geral mais novo, e a quem temos o dever de orientar, esclarecer e formar de acordo com as nossas crenças. Na verdade, como representantes da sociedade temos o dever de passar para as nossas crianças e jovens aquilo que aprendemos- nós também – de outros seres semelhantes, pais e professores – e que nos ensinaram de alguma maneira a sua forma de interagir com o mundo, dentro também de suas próprias crenças e limitações.
Educar, portanto, é oferecer ao outro um universo que moldamos de acordo com a nossa própria necessidade e que em geral não corresponde à realidade, porque da realidade nada sabemos. E essa forma de agir vem se repetindo sem que surjam novas possibilidades de passagem do conhecimento, mesmo com o desenvolvimento da tecnologia, pois os filtros com os quais enxergamos aquilo que chamamos verdade continuam praticamente os mesmos.
Educar, conhecer, descobrir, aprender são palavras sinônimas que nos apontam para precipícios se a comunicação entre a sociedade e aquilo que está sendo passado para os nossos jovens contiver ruídos que prejudicarão a mensagem. Na teoria da comunicação, chamamos de ruído toda e qualquer interferência na mensagem a ponto até mesmo de anulá-la. Portanto, para que possamos entender o que cada palavra acima significa é melhor traçarmos um mapa de acesso que nos conduza à nossa própria educação não só como indivíduos, mas como seres cuja tarefa é a educação de outros seres.
Vamos fazer uma exame de nossa situação como educadores. A escola em que aprendemos, os professores que nos influenciaram positiva e negativamente, os maus tratos ocorridos dentro da escola ocasionados pelos outros meninos ou meninas, os nossos pais, amigos, o nosso bairro, o nosso município, os nossos traumas, o que foi significativo na nossa aprendizagem, aquilo que não nos serviu e provavelmente não nos servirá e que até pode ser descartado que não fará nenhuma falta ao nosso conhecimento. Na verdade, nós adultos, somos um somatório de nossos aprendizados, das nossas experiências, hábitos, costumes sociais, padrões de comportamento adquiridos dos nossos parentes mais próximos, enfim, daqueles que de alguma forma serviram de modelo para a construção da nossa identidade. E com isso nos damos por satisfeitos já que funcionamos de forma razoável e adequada à maior parte das atividades que nos são exigidas.
Se moramos num país de primeiro ou de terceiro mundo, cujas relações sociais são pautadas pelas oportunidades maiores ou menores que temos a nosso dispor. Se vivemos num país em guerra ou em situações de paz que permeiam toda a nossa vida, e que vão determinar a nossa existência no planeta. Se habitamos um país posicionado acima ou abaixo da linha do Equador, em países tropicais ou em países menos ensolarados, cujo inverno predomina nas mentes como um elo que aproxima as pessoas, organizando-as em torno de uma melhor qualidade de vida mesmo em lugares inóspitos e gelados. Se convivemos com grandes diferenças sociais, com grandes dificuldades econômicas, de raça, de tradições que dificultam o nosso crescimento, de situações familiares que determinam o nosso posicionamento no mundo. Ou seja, a vida que nós levamos e as oportunidades que temos para crescer vão determinar a nossa felicidade ou infelicidade na nossa infância, juventude, fase adulta e também na maturidade.
No Brasil temos uma singular sociedade miscigenada. Como sabemos, o povo brasileiro é extremamente rico em sua diversidade e bem sucedido – se compararmos com o resto do mundo – nas suas questões raciais. Houve uma feliz coincidência na formação do nosso povo desde a colonização. Não pretendo aqui repetir o que já sabemos a respeito das guerras de ocupação das terras indígenas, que persistem até hoje. Nas guerras de confrontação entre fazendeiros, grileiros e nativos, tantas nações indígenas que foram praticamente dizimadas, inclusive pelas doenças trazidas pelo homem branco. Mas estou me referindo a uma realidade mais urbana. No início do século passado, tínhamos uma nação ruralista, mas com a primeira grande guerra e, principalmente, com a segunda guerra mundial uma quantidade enorme de imigrantes estrangeiros inundou o país com as suas crenças, tradições, expressões artísticas, religiosidades trazendo para as grandes cidades suas experiências milenares de vida.
Assistimos isso, por exemplo, com o nosso teatro, que deu um salto qualitativo ao sofrer a influência do teatro europeu na figura de pessoas como Ziembinski, Guarnière e muitos outros. A influência também na literatura brasileira foi enorme, o cinema e a televisão, assim como todo o resto do país, foram abocanhados por uma gama enorme e diversificada de indivíduos – e até mesmo grandes grupos de pessoas que fugiam das guerras em vários países. Por isso, a meu ver, o Brasil se tornou um território neutro e pacifista, constituído por fugitivos – alemães, italianos, que se fixaram principalmente no sul do país – e que conseguiram superar a violência da guerra rejeitando-a em suas relações uns com os outros. Árabes e judeus que se espalharam por vários Estados também é um excelente exemplo disso . Assim como os japoneses, que se fixaram principalmente no interior do Estado de São Paulo e na capital. Enfim, multidões significativas oriundas de várias partes do mundo, que procuravam a paz perdida. Povos cansados que vieram para cá com a necessidade primeira de fugir do horror da guerra e encontrar a paz, não importando as diferenças sociais, políticas, raciais, enfim nada. Esses grupos, que se voltaram para o novo mundo – a América – trazendo em suas bagagens a certeza de que deixavam pra trás o pior do seu passado, aquilo que não havia dado certo, aquilo que dividia, maltratava a alma e subjugava o espírito, semeando a infelicidade, a discórdia e a crueldade em seu extremo. O homem havia chegado ao seu limite.
E aqui foi o lugar da reconstrução moral, do sol que animava os novos sorrisos, das esperanças que semearam campos de convivência pacífica entre os povos. E isso tem sido a nossa maior riqueza, esse nosso estado de espírito leve e descontraído. Conheci, há pouco anos, um francês em Jericoacoara – considerada a praia mais bonita do planeta. Ele me confessou que quando chegou aqui aconteceram alguns confrontos no âmbito cultural e que resultou para ele em um novo aprendizado de vida. Aqui, para ele, não há rancor cultivado, não há aquela indisposição, que há em outros povos, de cultivar o negativo. Aqui as brigas, as discussões e as diferenças são esquecidas com uma rapidez que ele não estava acostumado. As questões morais não pesam excessivamente, podem ser esclarecidas com um sorriso amplo, um pedido de desculpas, uma expressão como “ Ah, deixa disso!”. Longe de querer fazer qualquer tipo de apologia ao país, mas procurando estabelecer os limites do nosso sucesso e do nosso fracasso em outras questões também de natureza social, é que vale aqui apontar na direção da construção da nossa identidade social como um povo sui generis.
O que esperamos das novas gerações é que elas continuem a cultivar aquilo que os nossos ancestrais trouxeram, essa ganância pela paz, mesmo que os conflitos no interior do Brasil pelas questões de terra ainda aconteçam, mesmo que a exploração do nosso povo ainda se dê de forma perversa, mesmo que discordemos da atuação política dos nossos dirigentes. Somos um povo miscigenado por nações antigas, cansado do confronto, aprendemos que não é na matança dos nossos companheiros de planeta que vamos resolver as nossas questões. Apesar de termos tido ditaduras cruéis como a de Vargas e a ditudura militar mais recentemente. O que nos leva a crer que o poder dos governantes encontra terreno passivo para as suas idiossincrasias. Mas o nosso bem primeiro, a base da nossa educação, é a busca da tranquilidade, da paz de espírito. Enfim gostaria de pensar que estamos criando seres conscientes, cuja coragem principal é a de aceitar o outro, aceitar a diversidade, aceitar o pensamento diferente. A verdadeira democracia não está na promoção da igualdade humana. A igualdade humana é desumana. Jamais serei igual a nenhum outro ser vivente. Meu dna é único, minhas impressões digitais são únicas. Sou original e quero ser aceito na minha diferença. A verdadeira democracia está baseada na diferença, e a nossa diferença é a nossa única igualdade. Somos todos diferentes perante o universo e todos iguais apenas perante a lei, já que uma lei individual seria impossível de se administrar socialmente.
Somos um país que muito tem pra ensinar ao mundo, não na tecnologia, não na cultura clássica, não nas questões de coesão social onde o coletivo prevalece. Mas na nossa diversidade cultural, na expressão da nossa arte, da nossa música afro-cabocla, na explosão das cores intensas dos nossos quadros, no contorcionismo do corpo do nosso povo nas esculturas de barro do interior, na inclusão pacífica de povos dos mais diferentes continentes, no respeito pela religiosidade, pelas diferentes crenças, pelos valores individuais e de grupos, pela opção em se calar muitas vezes evitando o confronto, mas adquirindo posse de espaços alternativos conquistados com o nosso jeito muito especial de contornar as adversidades. E aí eu me lembro do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e também do meu Faustino, um Fausto Nordestino, ambos uma homenagem ao nosso povo e a sua forma inusitada de viver a vida com criatividade, independente de sua precária formação escolar e da escassez de recursos materiais.
Somos um povo único. A organização social que aconteceu no nosso país no correr do século XX nos deu uma autonomia em relação ao resto do mundo, que podemos classificar como quase espiritual. E isso não é apenas uma apreensão minha. A maior parte dos grupos espiritualistas e holísticos do mundo inteiro apontam o Brasil como o lugar de onde irá surgir uma nova raça e uma nova atitude diante das questões antigas que parecem estar insolúveis na maior parte dos outros países. Temos uma constituição física forte, o nosso povo está acostumado às crises, está acostumado aos regimes de exceção, está acostumado com a carência, com a ausência do poder público, com a fragilidade das instituições, com a escassez. Mas também está acostumado ao pensamento livre, está acostumado com o sol, com a natureza exuberante, com a contracultura inata em nosso país em relação aos ensinamentos dos colonizadores, é um povo que duvida, que tem senso crítico, talvez até extremamente exacerbado, é um povo bem humorado, com um jeito muito próprio de conduzir a vida em suas vicissitudes e em dias melhores. É malandro, no sentido de não permitir que as instituições prevaleçam às suas necessidades. Por isso o nosso jeitinho brasileiro não é exatamente algo negativo, mas uma resposta ao poder público – sempre ausente – mas que quando se faz presente emperra, obstrui, é exigente, autoritário e impositor. Mas é um povo que não sabe se harmonizar ao coletivo, trabalhar em conjunto, usufruir da força dos sindicatos, dos ajuntamentos, dos grupos que comungam os mesmos interesses. Não é um país com mente industrializada, cujos direitos e deveres passam por instituições seguras que incentivem o coletivo e o social como os países europeus, por exemplo. As instituições aqui não são seguras. É um povo desamparado, mas por isso mesmo criativo, individualmente criativo, que sobrevive por sua própria conta e risco e a duras penas. Mesmo nesse individualismo, é solidário. Exatamente por ter passado sozinho por tantas vicissitudes, pode dimensionar a dor do outro e ajudar sem nenhum interesse pessoal o outro a se erguer.
Mas não conhecemos direito o país onde moramos, onde compartilhamos com seres tão distintos, apesar do idioma ser o mesmo, os mesmos sonhos de conquista, de felicidade, de vontade de crescer e de fazer crescer os nossos filhos. Quantos de nós, em sua juventude ou em sua idade adulta e madura tiveram oportunidade de viajar por essa imensidão de terra, entrando pelo interior, conhecendo, falando, interagindo com o pessoal local. Ou apenas no litoral, se limitando às capitais. Quantos de nós tiveram a experiência de reconhecer no outro o seu povo, o seu companheiro de jornada, aquele que escolhe os seus dirigentes junto com a gente, aquele que engrossa as fileiras dos quartéis disposto a morrer pela pátria, aquele que recebe uma ninharia pelo pão de cada dia, aquele que torce pelo Brasil nos campeonatos internacionais, aquele que é digno porque assim nasceu, porque aprendeu mesmo fora das escolas que o seu lugar no mundo é pequeno, mas é íntegro. Quem é essa gente que mistura aos seus dentes careados um punhado de feijão e farinha, que mistura os seus sonhos do norte com os sonhos do sul, das grandes cidades com os lugares mais abandonados nessa enormidade de país. E como fica a educação diante desse grande desafio? E onde fica o aprendizado diante de tão enormes dificuldades? O acesso à escola, o acesso ao livro, o acesso à sua própria história, o acesso às nossas origens?
Atualmente a Lei de Diretrizes e Bases de 1996 é a que está em vigor e, salvaguardada as suas limitações, atende a um percentual enorme de crianças e adolescentes em idade escolar. Todo o ensino no território nacional segue a padronização dessa lei que procura atender às diferenças regionais minimizando pelo menos na teoria as dificuldades de um país continental como o nosso. Atende a crianças em fase de alfabetização até a oitava série, perfazendo um total de nove anos de educação obrigatória por lei.
A organização do ensino fundamental se faz em dois ciclos. Os primeiros cinco anos em geral se dá em classes com um único professor regente, e o segundo ciclo em que o trabalho pedagógico é realizado por uma equipe de professores especializados em diferentes disciplinas. Para os primeiros anos escolares exige-se como formação básica do professor apenas a conclusão do segundo grau nas escolas de formação para o magistério. Considera-se que esse tipo de formação é suficiente para se lidar com crianças pequenas, cuja demanda se volta mais para um conhecimento muito restrito. Para os últimos anos do ensino fundamental exige-se a conclusão da graduação dos professores especializados em cada disciplina.
Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum a ser complementada por uma parte diversificada, de acordo com as características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela. Neste currículo único estão incluídas disciplinas como português, matemática, conhecimento do mundo físico e natural, realidade social e política do Brasil, geografia, história – incluindo   na   História   do   Brasil    as    diferentes
culturas e etnias como as matrizes indígenas, africanas e europeias – ciências, educação física, arte e uma língua estrangeira. Está também prevista na lei educação adequada, com conteúdos curriculares e metodologias apropriadas aos alunos da zona rural, aos alunos com necessidades especiais e alunos de regiões indígenas. Num certo sentido, hoje em dia já existe a preocupação com a diversidade cultural, e como determinadas abordagens regionais facilitam o aprendizado. Ou seja, a aprendizagem se torna mais fácil a partir de aulas e conceitos que se apoiem na experiência dos alunos naquela comunidade.

O governo federal aplica em torno de 18% e os Estados e Municípios cerca de 25% dos impostos arrecadados, para a manutenção do ensino público. Se é pouco, muito.Se é adequado, insuficiente, não nos cabe avaliar, mesmo sabendo que a educação é a base fundamental, o alicerce primordial de toda sociedade. O que interessa aqui é saber o que temos atualmente a nosso alcance em termos de educação, procurando fazer o melhor possível a nossa parte. Se os professores são mal remunerados, se não são reconhecidos como deveriam são questões que estão servindo há muitos anos para justificar a qualidade do ensino que temos. Talvez fosse interessante mudarmos o discurso e enfrentarmos a nossa incapacidade de gerirmos algo adequado com os recursos que dispomos. Isso não significa que o ensino público fique à deriva dos humores dos nossos governantes, mas que se situe dentro do panorama nacional como ponto de coesão, de onde partirá a trama fina e sutil que poderá mudar definitivamente o tipo de consciência que o nosso povo adquiriu desde a colonização.O benefício será de todos.
Que professores temos? Neste vasto território continental, com enormes diferenças geográficas e históricas, quem são os educadores? Que tipo de escolas eles frequentaram? Que tipo de família tiveram? Que tipo de compreensão do mundo adquiriram com as suas experiências desde o nascimento até a fase adulta? Que tipo de crenças estão determinando seu comportamento, sua ideologia, sua religião, sua forma de filtrar as experiências, a forma como ensinam. É claro que jamais teremos respostas capazes de enquadrar nessas questões o enorme contingente de professores e educadores do ensino público, e até mesmo do ensino particular, porque sabemos que as diferenças humanas são enormes. Mas podemos estabelecer alguns parâmetros que ajudarão a compreender melhor a questão. Todos nós nascemos zerados, sem conteúdo, a não ser algo indefinido que trazemos como nosso que é aquilo que chamamos de personalidade. O tipo de família , o ambiente onde seremos criados, a escola que frequentaremos, enfim tudo aquilo que faz parte da nossa educação como seres humanos determinará a construção da nossa identidade social, que comungaremos com outros seres semelhantes a nós. Desde que nascemos começamos a fazer parte de um grupo social, no nosso bairro, na nossa escola, na família, nos orfanatos se não temos família, incluindo até mesmo aqueles abandonados que terão seu grupo de afinidade nas ruas, nos guetos, na vida em geral. Nascemos sós, vamos morrer sós, mas somos seres que visitamos este planeta e nos relacionamos intensamente uns com os outros enquanto estamos aqui. Às vezes fico pensando que talvez por esse motivo aqui estamos – para nos conhecermos, nos darmos as mãos e compartilhamos a beleza do planeta em que moramos.
Na verdade esses professores tiveram seu percurso escolar passando por instituições que também estavam mais ou menos equipadas da mesma forma convencional que temos hoje. O velho quadro, negro ou verde, a cor não importa. O velho giz ou pilot, a cor também não importa. Os mesmos olhares autoritários dos professores, amenizados muitas vezes pelos argumentos, pela racionalidade, pelas vozes macias, por uma democracia igualitária e, por isso mesmo, discriminatória. A mesma forma de passagem do conhecimento através da palavra, dos ensinamentos falados e exaustivamente repetidos e aprofundados à medida em que as crianças vão se transformando em jovens, dos textos escritos nos livros didáticos, nas bibliotecas, nas expressões artísticas como o teatro, a literatura.
O que há de novo hoje é a tecnologia. Os novos computadores abrem espaço para a comunicação e para uma educação globalizada, onde a informação passa do plano regional para o internacional com extrema facilidade. Caminhamos, com certeza, para um planeta nosso, único, interligado por células, canais, fios, torres, satélites, pela televisão, pelo rádio, pela internet, pelos celulares. Inovações, descobertas que revolucionaram o mundo, mas não as mentes, que revolucionaram a comunicação mas não o entendimento, que revolucionaram a face do planeta mas não promoveram ainda o salto quântico, a grande transformação espiritual do homem, o seu novo patamar de conquistas, a sua nova audácia. Algo que nada tem a ver com as religiões, nem com as instituições, nem com nenhum sistema de crenças, mas tem a ver com o significado maior da nossa existência, o que cada um veio fazer aqui, a autossuperação, a coragem de ir além daquilo que foi determinado atrás pelos nossos ancestrais, aquilo que está para além da educação convencional das escolas. Aquilo capaz de romper com o passado e promover a liberdade.
Enquanto estamos presos a conteúdos vazios, cuja finalidade não supre o que temos de essencial em nossa busca de nós mesmos, estamos simplesmente congestionando a educação com assuntos menores que levam apenas a um conhecimento superficial que hoje em dia pode ser adquirido facilmente na internet. Isso de alguma forma nos liberta de um conhecimento arcaico, ultrapassado, e nos abre a possibilidade de utilizarmos o tempo que nos sobra com uma educação que alavanque novas possibilidades. Não precisamos mais entupir o nosso ser com conteúdos inadequados a ele. Não precisamos mais privilegiar as disciplinas – que a cada dia se tornam mais sem sentido – em detrimento do nosso autoconhecimento. E quando digo autoconhecimento não me refiro apenas ao espírito, mas ao nosso corpo, à nossa mente, às nossas emoções. A grande revolução que a humanidade está passando e que se desdobrará na ampliação da consciência para além do estado letárgico em que ela se encontra, é que estamos paulatinamente aprendendo a cuidar de nós. Por exemplo, hoje temos um conhecimento a respeito de uma alimentação mais equilibrada, que os nossos pais não tinham. Temos uma consciência ecológica que eles também não tinham. Uma atitude em relação ao nosso corpo, à nossa sexualidade, aos nossos desejos que sequer podiam ser pensados há poucos anos atrás. Enfim, mudamos, mas a educação, enquanto instituição, não acompanhou no mesmo ritmo.
O que ensinamos às nossas crianças e jovens sobre o nosso corpo, como sofremos as consequências do que comemos, como o nosso corpo funciona, como a natureza se processa em nós? O que ensinamos a respeito das nossas emoções? O que sentimos? Como os nossos hormônios, na fase de crescimento, podem alterar o nosso comportamento? Como podemos lidar melhor com as nossas alterações de humor já sabendo disso? As transfomações que passamos no correr da vida. A menina que menstrua, o menino que adquire pelos e a voz engrossa. O que ensinamos para os nossos jovens sobre o funcionamento da nossa mente? Que tipo de pensamentos temos em geral no nosso dia-a-dia, como podemos ter mais consciência dos estados emocionais a partir de um melhor conhecimento de como funcionamos? Se conhecemos minimamente as relações de poder que governam o mundo. Se temos uma atitude crítica desenvolvida e um estado de reflexão permanente que nos ajudam a lidar com as dificuldades. Essas questões, sabemos hoje, são primordiais, porque interferem inclusive no processo de aprendizado. Cada um é um universo de descobertas. Passamos a maior parte da nossa idade adulta tentando compreender o que aconteceu, qual o resultado em nossas vidas do que aprendemos e o que conquistamos a partir daí. O que resultou, o que deu certo, o que não foi aproveitado, o que foi desperdiçado. Se somos felizes, se temos problemas emocionais, se estamos pelo menos no caminho da realização profissional, se estamos alinhados com a nossa felicidade. Se somos amorosos, se conquistamos uma vida feliz e digna, se temos saúde física, emocional, mental, moral e espiritual. Enfim, se valeu a pena todo o esforço e o investimento dos nossos pais, da nossa família, da sociedade, e de nós mesmos, em relação à nossa formação.
Os conteúdos escolares ainda se limitam ao ensino do português, da matemática, da história, ciências, geografia, como se a geografia não sofresse transformações quase que diariamente. Como se a história não fosse feita cotidianamente por todos nós. Ainda temos uma ideia de um mundo estático, como era o mundo até os nossos avós. Ou pelo menos a informação chegava com muitos anos de atraso dando a impressão de ser estático. A nossa história, aquela que ensinamos ao nosso jovem – mesmo o materialismo histórico de Marx – além de estar contaminada por formas europeias de criar a história, também é ultrapassada a cada novo dia nesse mundo convulsionado pelas guerras e pelo poder político e econômico. Ainda se estuda nas escolas os heróis nacionais – em geral militares – incentivando aquilo que mais desprezamos hoje, a violência e a guerra. Não que os militares não tenham o seu valor histórico, mas o verdadeiro personagem, aquele do qual ninguém fala, são as relações sociais, os interesses econômicos, as riquezas do planeta – como o petróleo, a água potável e a Amazônia – que estão sendo disputados a ferro e fogo. Aliás, o que sabemos a respeito do nosso planeta? Apenas que linhas imaginárias determinam o que é o território da Itália, o que é o Brasil, o que é a Índia? Os acidentes geográficos continuam desvinculados do nosso dia-a-dia? Não temos ainda a consciência de que o planeta é um ser único e que o que acontece mesmo longe daqui pode afetar a todos? Os grandes abalos sísmicos, os maremotos, os terremotos, a mudança no curso dos rios, a energia nuclear, etc.? Ensinamos a cuidar da Terra? Aliás, sabemos fazer isso ou só repetimos o que ouvimos na mídia? Sabemos o que é uma economia sustentável? Sabemos como transpor o umbral da anterioridade para darmos um salto que nos transformará como seres mais conscientes, menos predatórios, mais felizes?Temos senso crítico desenvolvido para entendermos e ensinarmos aos nossos jovens que a mídia está toda ela montada para o espetacular, para o medo e a desgraça, provocando no ser humano um estrago irreparável? Que a mídia, na maior parte das vezes, é a voz contaminada do poder, que pretende manter sempre o estado em que as pessoas e as coisas funcionem para a satisfação dos poderosos? Quantos livros um professor no Brasil lê por ano? Lê apenas os didáticos, voltados para sua disciplina? Lê livros de literatura, de arte, de economia, livros estrangeiros, de outras realidades? Vai ao teatro? Vai ao cinema com regularidade? Visita museus, vai a exposições de pintura e escultura, a recitais de música, a encontros de literatura? Se vive próximo a comunidades indígenas, conhece a vida na floresta, vive no seu dia-a-dia próximo à arte indígena, à mitologia, ao conhecimento ancestral das tribos? Conhece ervas? Passa para os alunos o seu conhecimento, respeita a sabedoria existente nessas comunidades? Se trabalha nas comunidades carentes dos grandes centros urbanos, já percebeu que a carência maior é a ignorância? Que a miséria verdadeira é a miséria moral, intelectual e afetiva? Que a evasão escolar está associada à falta de compreensão por parte dos educadores de que esses meninos não são de classe média e que, portanto, não têm crenças, interesses e limitações morais de classe média? E que por isso mesmo o seu imaginário não é europeu, ou seja, que as questões que fazem parte do universo da educação – importadas dos ideários europeus – não lhe dizem respeito? Que as comunidades do interior, onde vivem caboclos, cafuzos, indígenas, negros e brancos, são de uma etnia muito própria, singular, e que essa mistura cria um sincretismo no imaginário popular. E que isso pode ser uma riqueza desperdiçada por educadores condicionados a uma realidade estrangeira, importada dos grandes centros urbanos, exclusivamente branca, voltada para uma educação imposta pelo MEC.
Recebi informações através de fotos sobre as comunidades indígenas no Brasil, principalmente na Amazônia, e a forma como tribos inteiras estão sendo tratadas com medicamentos alopáticos. Uma quantidade enorme de medicamentos – os mais variados – desde paracetamol até potentes antibióticos são usados com frequência, pelos índios, com indicação dos próprios médicos que os assistem. Na verdade, esses índios, mais do que tratados estão sendo exterminados por esse tipo de medicina que não lhes convém. Acostumados a serem tratados com ervas da própria floresta, ao usarem esses medicamentos acabam por se intoxicar, prejudicando – mais do que beneficiando – seus corpos. Esses medicamentos aliados a uma alimentação inadequada, que eles utilizam hoje, como refrigerantes, açúcares, amidos processados e bebidas alcoólicas em grande quantidade, tem ajudado em grande parte a interesses econômicos na região, que apostam na dizimação natural dos índios através da boca.
O interessante é que sabemos que uma boa parte desses medicamentos industrializados são extraídos de plantas – em geral surrupiadas da Amazônia – levadas pelas grandes indústrias estrangeiras de medicamento e devolvidas, já processadas e retransformadas através de manipulação química, às nossas farmácias. Daí o frequente boato que circula vez ou outra ao se referir aos interesses estrangeiros em transformar a Amazônia em território de todos para que seja melhor explorada e – certamente – pulverizada por interesses econômicos em larga escala.
Aculturados, dependentes, desorientados entre as suas antigas crenças e aquilo que a sociedade intelectual ocidental lhes oferece, os nossos indígenas estão relegados à sua própria sorte, uma sorte manipulada pelas mãos dos “ignorantes” que trabalham na educação, na medicina, e no próprio governo. Em nome da igualdade a educação foi massificada e distorcida. As diferenças foram desrespeitadas. A riqueza imaterial de várias etnias foram dilapidadas. Em nome da igualdade e em nome de um deus ocidental , que ninguém vê, civilizações livres se tornaram escravas e desapropriadas de sua identidade milenar. Em nome do emprego e do desenvolvimento econômico, extensões de terra do tamanho do Acre foram devastadas e mortas, direcionadas para plantio, pasto e extração. E a isso chamamos progresso. Ou seja, para nós o progresso então é medido apenas pela geração de dinheiro, e não de riqueza. Levando-se em conta que o dinheiro é uma parte muito ínfima da riqueza, podemos dizer que esses lugares tornados inóspitos à vida prejudicam mais do que aceleram o crescimento social dos grupos que aí vivem, exportando a dor para o planeta inteiro através do desmatamento, da poluição das águas, da morte ambiental.
Eliane Ganem

Editorial

Tenho pensado muito na qualidade dos editores atuais no Brasil. Há aqueles que publicam livros que atendem comercialmente aos seus anseios apenas e há os que investem sem correr muito risco, que é o caso das traduções de textos estrangeiros já trabalhados pela mídia. No que diz respeito aos livros para crianças e jovens, então, aí é que a coisa fica complicada. Uma enxurrada de pessoas contratadas sem qualificação para opinar sobre o conteúdo dos livros, na verdade tem colocado esse tipo de literatura à margem novamente daquilo que podemos chamar de arte. O resultado é uma quantidade enorme de livros de baixa qualidade, identificados apenas como paradidáticos, e que atendem aos anseios exclusivamente dos professores na utilização em sala de aula. Ao longo da minha trajetória como escritora voltada principalmente para a literatura infantil e juvenil tenho recebido sempre mensagens de editores que pretendem publicar meus livros. Com exceção de alguns poucos excelentes, e aí eu incluo as editoras do Grupo Record, que são meus editores desde quando era iniciante, e por quem tenho profundo carinho e admiração, a maioria não sabe o que diz nem do que se trata.
A última foi um livro que escrevi para atender crianças   pequenas   e   que   está   voltado   para   o
universo imaginário desse público. Um pequeno super herói que luta de forma bastante inusitada pela ecologia. É um livro leve, quase um non-sense porque o personagem, por ser muito pequeno ainda, faz o que faz sem ter muita noção do que está fazendo e aí se torna engraçado.
Pois recebi uma mensagem de um editor do sul me dizendo que o texto não servia para a sua editora porque era um texto engajado. Foi quando me dei conta definitivamente do estado de calamidade pública em que se encontra a cultura no Brasil.
A educação está agonizando há muitos anos e a cultura, coitada, antes estivesse só aculturada. Sem o compromisso social do editor e sem um entendimento da parte dele de que a arte para crianças e jovens deve ser tão bem elaborada quanto a arte para adultos, e que um texto ruim presta um desserviço à humanidade, fica tudo entregue à ignorância de quem ocupa cargos que envolvem a cultura no país. Enquanto esse editor não tiver boa educação, boas leituras, entendimento do que significa literatura, ele não pode ser editor. Além de escritora e dramaturga, fui editora da Paz e Terra e da Codecri, editora do Pasquim, durante alguns anos na área da literatura para crianças e jovens. Tenho orgulho de dizer que lancei muita gente boa, muitos ilustradores e escritores, e aí me lembro do privilégio de ter lançado a minha querida Sylvia Orthof. Então, dá pra falar do assunto sem parecer que falo apenas do ponto de vista dos autores. Enfim, a coisa está ficando esquisita demais pra ficar calada.

Eliane Ganem