A Desconstrução Poética do Social


Vivemos uma vida prosaica, cujo principal interesse está centrado em esparsas informações sobre a violência do cotidiano – amplamente divulgada pela mídia – e novelas de baixa qualidade literária que são oferecidas nas telas da tv. O poético – no sentido amplo – praticamente inexiste no nosso cotidiano. Essa forma de falar sem dizer, de escutar sem ouvir, de imaginar sem fazer. O poético cria o prazer literário, desperta a fruição estética, nos coloca diante do sabor da existência, nos surpreende porque estimula o pensamento metafísico. Mais do que o ensino da literatura, precisamos desenvolver a nossa capacidade de ensinar a ler pelo viés da arte, através de um olhar poético, metafísico, filosófico e existencial. Esse olhar, que deveria estar nas salas de aula, nas casas, nas ruas, na televisão, nos cinemas, nos teatros, no local de trabalho, em qualquer lugar onde houvesse pensamento e a sensação de que somos exemplares únicos e criadores singulares da nossa própria condição. O pensar, o estar, o caminhar filosófico e poético foram a base de algumas civilizações. Está na hora de extrair da nossa própria história o que sabemos, mas que esquecemos quando priorizamos o imediatismo dos bens materiais.

A literatura é uma construção poética bastante elaborada. Imita o real, mas o individualiza na ânima de seus personagens. Tipifica, e nessa tipificação introduz o belo, às vezes o exagero, às vezes o terror, mas certamente introduz uma singular interpretação da realidade. Ela nasce no bojo da Renascença, mas é a partir da imprensa de Gutenberg que se ampliou não só as possibilidades de divulgação da arte escrita como também a possibilidade de um maior número de leitores.

Pode-se dizer que a obra literária rompe com as expectativas de seu leitor e existe para isso. Ou seja, que a criação artística é uma mensagem que se orienta necessariamente para seu recebedor, completando nesse sentido o processo fundamental da comunicação. No entanto, a mensagem só se particulariza no momento em que provoca um “estranhamento”; portanto, precisa ser uma mensagem “original”, uma “criação”, para ter um caráter renovador da própria cultura.

É a partir dessa ruptura com o estabelecido, tanto a nível formal quanto de conteúdo, que a literatura enquanto arte, enquanto poética, pode provocar sua fissura ideológica em termos de visão da realidade e, por consequência, pode se constituir em objeto de conhecimento, ampliando e renovando o horizonte de percepção do leitor. É nesse momento que a arte se afirma como uma construção a-histórica, que apesar de estar no bojo de um social, está para além dele e pode dele falar.

Em constante simbiose com o social, que também se transforma, a arte, e particularmente a literatura, que é o que nos interessa aqui, se relaciona com o real de maneira ativa. Portanto, a criação literária só pode introduzir a “norma” (1) no seu interior para desmascarar, denunciando, pelo simples fato de existir como obra de arte, todo tipo de dominação social. Indo mais adiante, podemos levantar a questão não só da arte como o veículo principal para a denúncia de toda e qualquer dominação social, mas também a arte como o lugar do rompimento com o estabelecido, portanto com a cultura, seja ela qual for. É assim que o texto se converte em investigação do real, questionando-o, sem abdicar de sua natureza literária.

Por isso, ensinar literatura pode ter duas abordagens distintas. Ensinar aquilo que é culturalmente aceito pelo coletivo – já que a cultura é sempre coletiva. Ou ensinar pelo viés da arte, cuja função primeira é o rompimento com aquela, introduzindo o olhar da descoberta, a revolução daquilo que é culturalmente aceito. A arte é individual. É o olhar único que lançamos sobre o “normal”, o “cotidiano”, sobre o “humano”. Esse olhar descontaminado que revela, para quem olha, o estranhamento da vida, rompendo nesses momentos com o prosaico da existência, e abrindo os sentidos para a revelação poética, o enlevo, o êxtase.

Portanto, mais do que ensinar literatura, o grande desafio que os educadores enfrentam atualmente é introduzir o gosto pela leitura nas crianças e adolescentes, e muitas vezes nos adultos que frequentam as universidades e estabelecem com o livro apenas uma relação imediata e utilitária. A grande transformação ocorrida a partir da geração dos anos 70 certamente saiu de escolas que decididamente ensinavam o aluno a ter pensamento próprio. Pelas próprias condições planetárias, essa geração cresceu nos albores de um pós-guerra, quando então a humanidade havia descoberto o seu pior. Maio de 68 ficou marcado como o momento em que o mundo precisou tomar fôlego e discutir abertamente questões que antes ficavam relegadas aos pensamentos proibidos. As escolas públicas cumpriam um papel emancipador das mentes das crianças e dos adolescentes, influenciando na formação de novos leitores. As escolas particulares eram poucas, e a maior parte pertencia à igreja católica, que apesar de ser demasiadamente rigorosa ainda, tinha em seu quadro docente uma quantidade expressiva de excelentes intelectuais. Respirava-se cultura importada da Europa basicamente. Mas um tipo de cultura que cumpriu durante um bom tempo a função de introduzir nas mentes questionamentos, crítica, avaliação e transformação – que resultou numa revolução dos costumes, da família, da mulher e das chamadas minorias oprimidas. No final do século XX, a educação se deteriorou. Estamos vivendo o resultado da aculturação, da repressão, da liquidação do que tínhamos de melhor – a formação dessa massa crítica que nos custou tão caro. Claro que a ditadura militar tem o seu quinhão de responsabilidade no atual cenário cultural, mas também e principalmente a aculturação da classe média, promovida pelas escolas de primeiro e segundo graus, acrescida da inexistência de valores familiares – sejam eles quais forem – complicaram ainda mais a situação.

A questão política e econômica também tem sido decisiva. O atual modelo econômico do neoliberalismo tem cultivado frutos amargos que estamos já colhendo praticamente no mundo inteiro. Portanto, se queremos falar no ensino da literatura, devemos levar em consideração a especificidade atual da aculturação em nosso país e a inexistência de uma massa crítica nos vários segmentos da nossa sociedade.

Mais do que o ensino da literatura, o que se coloca hoje é o ensino da leitura, esse gosto pela fruição estética,  essa  ampliação  da   consciência  com  a

introdução do poético numa sociedade que privilegia basicamente o prosaico das relações sociais. E como se introduz nas mentes essa necessidade poética de conhecimento? Aquilo que faz com que despertemos para o sabor do livro ao invés de consumi-lo por uma questão meramente utilitária? A resposta está na forma como passamos para os nossos filhos e alunos a substância da nossa alma, o olhar que lê o que está escondido pela capa social. Aquilo que faz com que possamos nos entregar à verdadeira aventura da vida, não apenas como mero espectadores, mas como seres dotados de um espírito arrojado e criativo, capaz de acrescentar à leitura a experiência subjetiva da nossa própria vida.

A educação agoniza. Os recursos humanistas que tínhamos ao nosso dispor foram relegados à prateleira do arquivo morto da nossa memória. Pensar filosoficamente, ou seja, pensar na nossa condição humana, na necessidade que temos de buscar elementos para o nosso desenvolvimento individual, são questões que esbarram hoje numa competência funcional inadequada. O mercado de trabalho suprimiu – definitivamente – questões que sempre conduziram a humanidade para o interior de si mesma. Pensar filosoficamente é algo que nos oprime hoje, enquanto sabemos que civilizações inteiras alcançaram altos patamares de desenvolvimento social tendo por objetivo a compreensão básica da existência. Se a educação não se volta para a introdução do ensino da filosofia, do ensino poético, do ensino emancipatório, sobra apenas um punhado de escravos mecanizados pelo cotidiano de uma sociedade incapaz de refletir sobre si mesma. Os nossos educadores – pais, professores e o grande contingente de profissionais voltados para a educação – precisam introduzir nas suas próprias vidas o sabor poético que empresta à experiência humana o seu toque “especial”.

Por isso, respondendo rapidamente às questões colocadas pelos pós-modernos, seria interessante sim que retomássemos, pelos menos naquilo que se mostrou emancipatório, a herança do Iluminismo, mas introduzindo as conquistas primordiais dos séculos subsequentes. Precisamos sair do prosaico das novelas do cotidiano e cair no poético da nossa própria existência. Cair no poético é a expressão correta, porque o poético funciona como uma armadilha. Como diz Vinícius em um dos seus poemas: “O Operário em Construção”. Nele, um operário – que empilhava tijolos e construía casas – não sabia por que um tijolo valia mais que um pão.


“Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão –
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
(…)
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.


Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em lardo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.” (2)

E esta talvez seja a nossa melhor possibilidade – um vírus benéfico que se alastra sem se importar com as classes sociais, com a faixa etária, com nada do que é politicamente correto. Essa mesma poesia que faz a nossa existência ter mais sentido, ter mais consistência. Esse estado de espírito enlevado que soprou na alma dos mais diferentes artistas – nas artes plásticas, na literatura, na dança, na música, na medicina, na tecnologia, no pedreiro, na vida.

Como podemos introduzir então o poético nas nossas vidas, na vida dos meninos de rua, dos traficantes, da polícia? Na vida dos pais e professores, na vida dos passantes, dos caminhantes, dos educadores, psicólogos e pedagogos? Na vida dos cientistas, dos pesquisadores, dos que estão ávidos de ganância, corrompidos pelo trabalhado alienado, pela selvageria dos grandes centros urbanos, pela necessidade obscura do ganha-pão?

Essa é, para todos nós, a grande questão. E a resposta está em parte na própria literatura e na qualidade poética de suas páginas. A outra parte está nas salas de aula, nas casas, nas ruas, na televisão, nos cinemas, nos teatros, no local de trabalho, em qualquer lugar onde há pensamento e a sensação de que somos exemplares únicos e criadores singulares da nossa própria condição. O pensar, o estar, o caminhar filosófico e poético foram a base de algumas civilizações, inclusive a ocidental. Está na hora, portanto, de extrair da nossa própria história o que sabemos, mas que esquecemos quando priorizamos o imediatismo dos bens materiais.

Se conseguirmos introduzir a descoberta desse olhar que nos torna mais vivos e comprometidos com o fato de estarmos aqui nesse planeta por um tempo tão mínimo, aí sim estaremos equipando cada um de nós com o único sentido da arte – a poética como algo revolucionário.
Eliane Ganem

NOTAS

(1) FOUCAULT, Michel. História social da criança e da família, 1965, p.13
(2) LYRA,Pedro. Vinícius de moraes – poesia, 1983, p.128