Como reconhecer um bom livro de literatura para crianças e jovens


No momento em que as editoras estão abarrotadas de textos para publicação, sendo uma boa parte traduções que alcançaram sucesso em culturas diferentes da nossa, mas que adquiriram vida própria a partir das adaptações cinematográficas, me pergunto onde ficam os bons livros dos bons autores brasileiros que escrevem para crianças e jovens.

Apesar do governo federal estar criando leis que contribuem para o desenvolvimento do nosso cinema, da nossa TV, e que irão ajudar na colocação de livros adaptados em filmes e seriados, acredito que a literatura infantil ainda continuará no limbo por um bom tempo. Apesar de estar sendo cada dia mais valorizado pela indústria cinematográfica norte americana, no nosso país ainda há muito preconceito em relação ao escritor que escreve para crianças e jovens. Tanto é que o cinema nacional não tem interesse ainda nesse tipo de público.

Por isso está cada vez mais difícil para pais e professores reconhecerem, e até mesmo selecionarem e adotarem livros, que ajudem as nossas crianças e jovens a encontrarem um caminho literário com abordagem de temas de seu interesse sem aliená-los de sua condição básica de leitor.

Cumprindo a mesma função que alguns livros cumprem no universo da literatura para adultos, como os best-sellers, por exemplo, os livros infantojuvenis, em sua maioria, servem para camuflar as verdadeiras relações de dominação e poder em nossa sociedade moderna. Com o intuito de divertir o leitor, de formar o hábito de leitura, as mais diferentes licenciosidades têm sido permitidas e aplaudidas até mesmo pelos “legítimos” defensores do universo infantil.

Fazendo uma pequena análise dos livros atuais, percebe-se que uma parte considerável apresenta as mesmas soluções mágicas dos contos de fadas, não importando se esses textos, ao longo de sua carreira literária, tenham sido classificados como de cunho realista ou fantástico. As dicotomias bem X mal, justo X injusto, certo X errado, feio X bonito, passivo X ativo, etc., ainda estão presentes, mesmo que seja hoje em dia mais difícil de reconhecê-las. Esses textos geralmente apresentam uma conformação no nível do mágico e do fantástico. Neles se incluem as lendas, algumas fábulas e a maior parte dos textos em que os animais substituem os homens – o bestiário – para que a relação de dominação se torne menos evidente. Mas incluem também, de forma surpreendente, livros consagrados que abordam determinados temas sociais sérios, solucionados pelo lado lúdico, sem nenhum aprofundamento.

A conformação tem um caráter alienador do homem como ser no mundo, e eliminando as contradições nivela as relações sociais, esconde a dominação, fetichiza a relação dos homens com outros homens e com as coisas, e o aliena enquanto o objetifica e enquanto o suplanta nas suas ações, emoções e ideias. Nesse sentido, a literatura por si só não pode cumprir o papel alienador que envolve o homem de hoje, mas pode, e tem sido o papel de uma farta literatura, reproduzir a dominação, reforçando-a.

Desde Lobato até hoje são poucos os autores que ao respeitarem seus leitores, eliminam de suas páginas a conformação, a alienação, introduzindo o pequeno leitor nas contradições de sua época, mesmo que homeopaticamente, tratando de temas e de situações que convidam a pensar e a se posicionar desde cedo. Então, para reconhecermos uma boa literatura precisamos saber se ela se adéqua ao nosso público, se ela respeita o pequeno leitor, introduzindo-o numa leitura prazerosa, mas consequente. E se ela, sendo bem escrita, leve, ligeira, consegue abrir um leque de possibilidades que façam pensar, que resgatem o leitor para a aventura de uma boa leitura, mas também para a aventura de conhecer o outro, o mundo em que vive, as contradições sociais de seu tempo, as dúvidas que terá que enfrentar durante uma parte de sua vida ainda imatura, as diferentes abordagens que um mesmo tema pode despertar em cada um.

No entanto, apesar da sofisticação atual, dos efeitos especiais do cinema e da tv,  dos  livros  em  série  que

esgotam edições de alguns milhões de exemplares rapidamente, nada de muito novo acontece. A indústria do infantil sabe como fazer a coisa acontecer, repete fórmulas de sucesso e induz uma quantidade enorme de autores a seguirem o mesmo caminho, utilizando com abundância elementos mágicos solucionadores. Aí o lúdico se apresenta como escape certo na solução de qualquer problema ou conflito. Esses recursos empobrecem a trama, oferecendo soluções rápidas, pouco compromissadas, reduzindo o social ao individual, o individual ao mágico e ao episódico, como se todos os envolvidos fossem apenas heróis e não personagens de sua própria história.

Ao contrário da literatura para adultos, que parte de um particular para exprimir um geral, a literatura para crianças parte de um geral para exprimir um particular, um individual, e muitas vezes uma exceção. Os casos são atípicos, pois só concorrem para um único modelo no seu desdobramento. E é nisso que mora o perigo. Em nome do lúdico, em nome da imaginação, verdadeiras aberrações são glorificadas por um público pouco atento e que vê a criança como ser estático, eterno, sem avaliar o estrago que está sendo realizado e que poderá se desdobrar em sua fase adulta.

Portanto, não é necessário ser um especialista em literatura para identificar o livro adequado para uma turma de adolescentes, por exemplo, ou os pais comprarem um livro, certos de que estarão contribuindo de forma prazerosa para o amadurecimento de seus filhos. O velho bom senso é a bússola ideal, mas pontilhada de ousadia, de algo que não é fechado em si mesmo, que coloca o leitor para pensar, para refletir e até mesmo aprender que existem outras formas de se compreender o mundo, além da dele.

É sempre bom os professores lerem antes os livros que adotarão, o que nem sempre acontece, já que as editoras oferecem catálogos com dados sobre o conteúdo. Mas, além de lerem os livros, optarem pela diversidade, adotando temas diferentes, de editoras distintas, fugindo um pouco do convencional ou daquilo que todo mundo gosta. E ainda se voltarem nessa leitura, para questões básicas como trama bem elaborada, texto bem escrito, temas que estão de acordo com o nosso dia-a-dia, com a nossa realidade, e que introduzem o questionamento, o pensamento crítico, que ajudem a promover uma salutar discussão em sala de aula, e se são prazerosos.

Para os pais e professores, podemos dizer que existem alguns critérios que podem ser valorizados na hora de se escolher e adotar um livro. Aqui vão alguns:

1 – realidade sociocultural das crianças e jovens
2 – interesses relacionados com a idade
3 – interesses relacionados com a comunidade
4 – influências da mídia
5 – criatividade
6 – independência literária
7 – atualidade
8 – qualidade literária

O que significa dizer que o ambiente sociocultural determina em parte nossas escolhas, assim como os interesses relacionados com a idade. No entanto, há outros fatores que extrapolam esses limites, alguns de forma nem sempre positiva como o caso daquilo que é imposto pela mídia, e outros positivos, que fazem a diferença porque se baseiam na criatividade do autor, assim como na sua independência literária, na sua coragem na abordagem de temas, na sua atualidade, e na qualidade literária daquilo que escreve.

Para um educador, acostumado à leitura, espera-se que ele tenha quilometragem suficiente para fazer valer as melhores escolhas. Para os pais, é necessário também que tenham algum preparo, ou pelo menos curiosidade em estabelecer parâmetros de qualidade para que as escolhas ofereçam um leque abrangente de opções que poderão ajudar o pequeno leitor em sua jornada.

E, finalmente, cuidado com a mídia. Ela nos faz acreditar em crenças que não são nossas, a importar modelos estranhos à nossa realidade, como se toda a humanidade já estivesse resolvida e nos bastasse apenas a beleza importada de uma Barbie magra ou os músculos verdes de um selvagem, mas carismático, Hulk.
Eliane Ganem