Editorial

Tenho pensado muito na qualidade dos editores atuais no Brasil. Há aqueles que publicam livros que atendem comercialmente aos seus anseios apenas e há os que investem sem correr muito risco, que é o caso das traduções de textos estrangeiros já trabalhados pela mídia. No que diz respeito aos livros para crianças e jovens, então, aí é que a coisa fica complicada. Uma enxurrada de pessoas contratadas sem qualificação para opinar sobre o conteúdo dos livros, na verdade tem colocado esse tipo de literatura à margem novamente daquilo que podemos chamar de arte. O resultado é uma quantidade enorme de livros de baixa qualidade, identificados apenas como paradidáticos, e que atendem aos anseios exclusivamente dos professores na utilização em sala de aula. Ao longo da minha trajetória como escritora voltada principalmente para a literatura infantil e juvenil tenho recebido sempre mensagens de editores que pretendem publicar meus livros. Com exceção de alguns poucos excelentes, e aí eu incluo as editoras do Grupo Record, que são meus editores desde quando era iniciante, e por quem tenho profundo carinho e admiração, a maioria não sabe o que diz nem do que se trata.
A última foi um livro que escrevi para atender crianças   pequenas   e   que   está   voltado   para   o
universo imaginário desse público. Um pequeno super herói que luta de forma bastante inusitada pela ecologia. É um livro leve, quase um non-sense porque o personagem, por ser muito pequeno ainda, faz o que faz sem ter muita noção do que está fazendo e aí se torna engraçado.
Pois recebi uma mensagem de um editor do sul me dizendo que o texto não servia para a sua editora porque era um texto engajado. Foi quando me dei conta definitivamente do estado de calamidade pública em que se encontra a cultura no Brasil.
A educação está agonizando há muitos anos e a cultura, coitada, antes estivesse só aculturada. Sem o compromisso social do editor e sem um entendimento da parte dele de que a arte para crianças e jovens deve ser tão bem elaborada quanto a arte para adultos, e que um texto ruim presta um desserviço à humanidade, fica tudo entregue à ignorância de quem ocupa cargos que envolvem a cultura no país. Enquanto esse editor não tiver boa educação, boas leituras, entendimento do que significa literatura, ele não pode ser editor. Além de escritora e dramaturga, fui editora da Paz e Terra e da Codecri, editora do Pasquim, durante alguns anos na área da literatura para crianças e jovens. Tenho orgulho de dizer que lancei muita gente boa, muitos ilustradores e escritores, e aí me lembro do privilégio de ter lançado a minha querida Sylvia Orthof. Então, dá pra falar do assunto sem parecer que falo apenas do ponto de vista dos autores. Enfim, a coisa está ficando esquisita demais pra ficar calada.

Eliane Ganem