Ziembinski


“É preciso que as pessoas que se dão à arte de representar criem dentro de si a mística do teatro; façam do teatro uma religião. É necessário que a cada vez que se entre num teatro se tenha sensação de estar penetrando num templo religioso. E que isso seja feito com um verdadeiro sentimento de respeito pelo que há ali dentro, porque o âmbito de uma caixa teatral é um local respeitável. Até as paredes devem ser olhadas, se possível com veneração porque, nessas mesmas paredes, muitas vezes se quebraram ecos de vozes ilustres de artistas que souberam dignificar a arte”. *
Ziembinski

Quando assisti Ziembinski atuando no palco, em 1976 – seu último espetáculo – intuía que tinha diante de mim a história viva do Teatro Brasileiro, mesmo que ainda não soubesse efetivamente de sua importância. O jeito agressivo e taciturno do seu personagem criaram em minha mente a mesma visão que trago para os dias de hoje e que procuro transcrever aqui. Havia algo de gigantesco em sua performance, algo que roubava a tímida apresentação dos outros atores. Mesmo que não soubesse exatamente disso na época, a imagem que conservo está intacta, não foi profanada pela passagem dos anos. Na verdade, nela reside o mistério daquele momento, exatamente como a experiência religiosa permanece viva dentro da gente, porque interligou definitivamente a fonte da criação divina ao nosso espírito.

Mas isso não é mérito meu. Quem assistiu Ziembinski no teatro como ator ou diretor, tem a mesma percepção de que algo se alterou em sua alma. Houve uma espécie de acréscimo existencial, um encaixe de pedras que rolavam sem destino apropriado e que agora se harmonizavam dentro do universo paralelo da arte. E o teatro, como sede da rebelião humana, tem sido vitorioso – mesmo em suas eternas e aparentemente incontroláveis crises – apenas por dispor de nomes que mantiveram a vivacidade da criação no espírito da humanidade. Um desses nomes nasceu na Polônia em 1908 e em 1941 chegou ao Brasil. Trazia uma pequena bolsa carregada de experiência teatral e uma vontade enorme de sobrepujar a morte que assolava a Europa. Zhigniew Marian Ziembinski se apaixonou pelo Rio e aqui ficou – para  cumprir  um

destino que transformou para sempre o Teatro Brasileiro.

“Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, foi a primeira grande montagem assinada por ele, e que modificou completamente a forma como o nosso teatro – ainda bastante incipiente – era produzido em meados do século passado. Um exemplo foi a luz utilizada. Naquela época, a luz teatral era uniforme, por isso os 132 efeitos de luz e mais os 20 refletores usados – alguns emprestados dos jardins do Palácio da Guanabara – não só resultaram num efeito plástico inovador, como também dividiram as cenas em três planos distintos – a realidade, as cenas do passado e o delírio da personagem – criando novas possibilidades cênicas para o texto, e que para nós eram inimagináveis. Essa montagem para o texto de Nelson foi tão marcante, que durante anos ninguém mais conseguiu montar a peça sem a concepção vertical por ele criada.

Ziembinski trazia a experiência do teatro europeu. Aos 23 anos já tinha sido diretor do Teatro Nacional de Varsóvia e do Teatro Lodz, onde dirigiu cinco peças. Nasceu em Wielicka e formou-se em arte dramática na Universidade de Cracóvia. Quando chegou ao Brasil, logo se associou ao “Os Comediantes”, um grupo de atores amadores, que trabalhavam no teatro por puro passatempo. Ziembinski transformou-os em atores profissionais, lançando-os definitivamente no cenário brasileiro, após a montagem do “Vestido de Noiva” .

Era um diretor polêmico, severo, enérgico e muitas vezes escandaloso. Por isso muitos atores, com quem trabalhou nas 94 peças que dirigiu, não morriam de amores por ele. Ensaiava até a exaustão e enquanto não obtivesse de cada um o que queria, ninguém tinha a permissão de ir embora. Passou pelo Teatro Brasileiro de Comédia e pelo Teatro Cacilda Becker. Era também pintor e fotógrafo, sendo considerado pela maior parte da crítica especializada como “um monstro do teatro”, a quem devemos ainda hoje o melhor da nossa arte.

Ziembinski morreu em 1978, aos 70 anos de idade, sendo 50 dedicados ao teatro e 35 ao teatro brasileiro. Quando chegou ao Brasil, não falava uma palavra de português, mas quando nos deixou o pequeno sotaque que ainda conservava – símbolo do esforço para compreender uma cultura tão diferente da sua – aumentava ainda mais o brilho de sua, extremamente rica, estadia entre nós.

Eliane Ganem